⚔️ A MINHA EXPERIÊNCIA NOS COMANDOS
Vivências durante o 85ª curso de Comandos Portugueses
Texto escrito poucos anos após o curso de Comandos
Foi provávelmente com esta experiência, o curso de Comandos em Sta Margarida em 1986 (85ª curso), que eu tornei-me plenamente um 'Homem', um pouco à semelhança , salvaguardando as devidas proporções, ao efeito da reclusão durante quatro anos (em pleno séc. XIX) num presídio da Sibéria sobre Dostoievski.
Tornei-me um 'Homem' no bom e no mau sentido : no bom, porque me faltavam disciplina e espirito de abnegação - devido provávelmente a uma vida fácil e a um pai extremamente permissivo que não disciplinava - e no mau, porque foi com esta experiência que perdi provávelmente toda a minha ingenuidade, pureza e, óbviamente aquela alegria de viver, apanágio das crianças e adolescentes, só perdida em adulto face às agruras da vida.
Fui para os Comandos pelo gosto da aventura e igualmente porque pensava na época 'se já que tinha de cumprir tropa, que fosse ao menos uma a valer, uma a sério', uma tropa que fosse fértil em experiências fortes e ensinamentos e que me proporcionasse memórias para mais tarde recordar ao calor de uma lareira, com um neto no meu colo e outros ao redor, todos embevecidos com as histórias do velhote.
Hoje não estou arrependido, provávelmente acabaria por perder mais tarde ou mais cedo aquele 'extâse divino', porque esta experiência acabou por ter um saldo positivo, apesar de me censurar amargamente na altura e de pensar como é que pude ser tão ingénuo ao ponto de a ter desejado e ter vindo 'voluntáriamente'. Era no minimo parvo, atendendo a todas as advertências que me foram feitas no sentido da dureza da instrução a que eramos submetidos, o que eu não levei muito a sério Pelo contrário, menosprezei completamente relatos dantescos de amigos meus que já tinham por lá passado, supondo que eram exagerados. A recruta e o curso duram aprox. 4 meses e meio, durante os quais verificam-se períodos de 15 dias de instrução, finalizadas com estadias de 3 dias em casa.
Eu hoje compreendo essa minha obstinação : desconhecia completamente o conceito de 'arranhar, o esforço fisico levado ao extremo, com alguma brutalidade à mistura, que é a tal 'acção psicológica' característica de algumas tropas de elite mundiais, as mais exigentes e que, incredulamente descobri mais tarde, era totalmente desconhecida nas outras tropas especiais Portuguesas, nomeadamente os Paraquedistas e Fuzileiros Portugueses.
O que eu mais temia (nem todos tinhamos as mesmas fraquezas) eram as marchas, denominadas na terminologia militar de 'marcor' e 'marfor', abreviações de 'marcha corrida' e 'marcha forçada'. A primeira era uma variante da segunda, que consiste numa marcha durante horas a um ritmo muito acelerado, daí a designação de 'forçada', fardados e equipados com arma, a icónica G3, cantil de água cheio e mochila carregada de areia. Na 'marcor', há períodos de corrida intercalados com a tal marcha da marfor' e era normal também nesta modalidade, as dores nas pernas, especialmente nas coxas, serem tão intensas que algumas vezes vinham-me as lágrimas aos olhos. Era uma constante sermos levados à exaustão total. Lembro-me de ao fim de poucos meses, meus pares de calças deixarem de me servir porque as coxas já não entravam, literalmente.
Estes e outros exercicios levaram à morte instruendos, o que não aconteceu no meu curso, mas verificou-se em outros. Estes acidentes eram supostamente quase sempre abafados, mas nos últimos anos vieram a público algumas notícias que provocaram a indignação e o repúdio. Será que esteve na origem do término do curso de Comandos, a divulgação destes incidentes mortais ? Eu suponho que sim. Guardei recortes de algumas notícias veiculadas nessa altura (lia religiosamente o 'Jornal Expresso') e vou transcrever alguns excertos :
Embora se saiba já, através de uma fonte clínica do Hospital de Abrantes , para onde as vítimas foram transportadas, que os dois soldados pereceram por exaustão , em resultado dos testes físicos que estavam a cumprir ... os dois mortos situavam-se entre os mais bem classificados nas provas anteriores e dispunham de condições físicas para cumprir o trajecto em situação normal . Fontes militares sugerem que eles próprios podem ter exigido do seu corpo mais do que este podia fornecer . Mas a ser verdade, isso teria razões específicas : o treino de Comandos estimula a emulação, e os que chegam à frente beneficiam de certas regalias , enquanto os retardatários são insultados e agredidos pelos instrutores e , mais tarde castigados Jornal Expresso em 23/04/88
O Provedor de Justiça instaurou um processo de averiguações sobre o modo como é ministrada a instrução no Batalhão de Comandos, na sequência da morte por exaustão de dois jovens no campo militar de Santa Margarida ... O exército confirmou ainda a prática da introdução de sapos na boca de instruendos Jornal Expresso em 07/05/88
A investigação foi motivada por uma notícia do semanário O Independente , segundo o qual a morte do recruta José Mário da Silva Nunes em 11 de Setembro , ocorrera devido a espancamento por um instrutor daquela unidade ... Aquele semanário, que fundamentou a notícia em fontes fidedignas , acrescentou que cerca de 400 recrutas mobilizados nos exercícios tinham baixado às enfermarias por exaustão física e à beira da inconsciência Jornal Expresso em ????
Muito mistério continua a envolver a morte aos 21 anos do recruta José Mário da Silva Nunes ... Dúvidas quanto à forma como foi ministrada a reanimação e os murros e pontapés dados áqueles que tentavam abandonar a prova , bem como a informação de que mais dois recrutas entraram em coma durante , ou depois , do exercício militar Jornal Expresso em 14/9/90