ENSAIOS

A MINHA EXPERIÊNCIA NOS COMANDOS » PARTE II

Vivências durante o 85ª curso de Comandos Portugueses

1ª PARTE

As mortes eram esporádicas, mas o mesmo não se pode afirmar quanto ao estado crítico em que os recrutas se encontravam durante esta prova de três dias, situação amplamente documentada, já que os instrutores comercializavam fotografias desses episódios. Uma das imagens mostrava numerosos militares debaixo de um toldo de campanha, em estado de semi‑consciência, a receber soro.

Alguns colegas, ao término daqueles três dias, apresentavam‑se em estado quase cadavérico. Um episódio particularmente marcante ocorreu com um deles (Quadros 4) durante a marcha forçada de regresso ao quartel de Santa Margarida: por causa da extrema fraqueza, foi inicialmente colocado numa ambulância, mas, ao chegar ao destacamento, foi retirado da viatura e obrigado a deslocar‑se — apoiado pelos ombros de colegas — até à parada. O pai do jovem, encontrava‑se ao portão do quartel, creio que também era ou foi militar. Recordo‑me da sua estupefacção ao ver o filho com um rosto cadavérico — situação que não era isolada. É notável como três dias de exercícios intensos podiam reduzir um corpo saudável a um estado de total exaustão.

Quadros 4 do 85º Curso de Comandos

Convém também referir, em abono da verdade, que este esgotamento extremo resultava da postura pouco rebelde de muitos recrutas, que acatavam todas as ordens durante a instrução e se privavam de artifícios como a “ronha”, por receio de serem descobertos. Eu dominava essa ousadia e, embora dela tivesse obtido benefícios, também sofri bastante, em particular durante a terrível prova de choque. Recordo duas situações:

  • Recolhia água de poças com um pequeno pacote de leite com chocolate (com o topo cortado) da ração de combate, que guardava num bolso lateral enquanto corria com o grupo; acabei por ser apanhado.

  • Num terreno pedregoso, escolhido precisamente para dificultar o exercício, em que devíamos executar a “queda na máscara” à ordem, atirava a G3 ao chão e deitava‑me de bruços com calma, evitando 'projectar' os joelhos e cotovelos naquele piso agressivo, conforme pretendido; também fui apanhado.

  • Durante uma marcha forçada noturna, abandonei a coluna a certa altura e escondi‑me atrás de um arbusto porque apresentava bolhas num pé que me causavam grande dor ao correr. Aproveitei o episódio para beber água numa poça, deitado de bruços; foi a água que melhor me soube até hoje. No Ultramar, esta prova chegou a ser conhecida como Prova da Sede. Ao regressar à companhia, já formada, fui detido e conduzido à presença do capitão em frente de todos. Este ameaçou‑me com uma punição exemplar, que, felizmente, não se concretizou.

  • Transportava na G3 vitamina C (Cecrisina) e, na mochila, misturados com a areia, vários saquinhos multivitamínicos e proteicos que o meu pai me dera. Antes da partida para a Prova de Choque — corria a história de um indivíduo que cortara os pulsos para evitar participar — os instrutores formaram‑nos em frente à caserna, de noite, e mandaram colocar as mochilas no chão para inspeção. Tudo decorreu num grande alarido, com granadas ofensivas a intensificar o ambiente de guerra e terror característico da prova. Consegui, com muita cautela e sorte, retirar as saquetas e ocultá‑las por dentro das calças; durante a marcha forçada até ao local da prova, as saquetas foram‑me ferindo as virilhas, mas não as abandonei.

  • Durante a instrução vivi muitos outros episódios semelhantes, era algo que me vinha naturalmente e que não conseguia evitar. Contarei apenas mais dois que me foram particularmente úteis.

    • Uma prova que era uma corrida realizada na grande avenida do campo de Santa Margarida, imediatamente após o jantar, era efetuada apenas com a G3 e o cantil, sem transporte de mochila. Tínhamos de subir em direção à igreja e, em seguida, descer, com militares a controlar ambos os sentidos. É desnecessário referir que, na 'subida', eu saltei para o sentido oposto e ... seguia logo atrás dos primeiros.

    • Numa prova noturna — na qual eu já comandava uma equipa — éramos obrigados a seguir estritamente as coordenadas e o azimute fornecidos, sem recorrer a “picadas”. Suspeitei desde o início e, pouco depois, comecei a identificar na carta as picadas que nos permitiriam alcançar os diversos pontos. Havia, de facto, viaturas militares a percorrê‑las durante toda a noite, pelo que nos escondíamos constantemente. Fomos dos primeiros a chegar, já de dia; as restantes equipas só foram aparecendo muitas horas depois, exaustas. Os azimutes tinham‑as conduzido a locais muito inóspitos, de difícil progressão e de onde era complicado sair.

    Amizades para toda a vida nos Comandos

    Referi acima que fui voluntário, mas não no sentido que o leitor provavelmente imagina: fui escolhido durante a inspeção militar realizada em Setúbal, após as provas físicas, médicas e psicológicas. Fui selecionado juntamente com cerca de meia dúzia de outros, entre as dezenas — se não centenas — de jovens que nesse dia contactaram pela primeira vez a instituição militar. À tarde, reuniram‑nos numa sala e fomos visitados, por sua vez, pelas três forças especiais (Fuzileiros, Pára‑quedistas e Comandos), que nos tentavam recrutar para as respetivas unidades. Fui o único a optar pelos Comandos, não por influência do cabo que nos abordou — cuja persuasão foi mínima ou inexistente — mas porque já levava essa intenção.

    Posteriormente, fui convocado ao Regimento de Comandos, na Amadora, para realizar provas eliminatórias. Após aprovação, fui destacado para Santa Margarida para cumprir o serviço militar obrigatório (17 de fevereiro de 1986, 1.º turno). Integrei uma companhia de milicianos — eu já com o 12.º ano concluído — composta por 151 homens, distribuídos por quatro quadros (grupos). Curiosamente, apenas conheci mais um indivíduo que estava ali por livre iniciativa : só 7 tinham aceite ingressar nos Comandos . A maioria dos colegas encontrava‑se na unidade por obrigação, pois não desejavam integrar as tropas especiais, muito menos os Comandos, apesar de terem sido selecionados para essas tropas durante a inspeção. Na companhia de contingente geral, pelo contrário, predominavam os voluntários, orgulhosos da missão de conquistar a boina e o o 'crachat' de Comando.

    Obstaculo na Prova de fogo dos Comandos

    Durante o curso de Comandos, frequentemente pensei que tudo não passava de um sonho — antes um pesadelo: era inconcebível que, em 1986, jovens portugueses fossem submetidos a uma tortura física e psíquica daquela dimensão. Inicialmente satisfeito por ir para Santa Margarida, acabei por passar a odiar a tropa, o curso, os Comandos e os meus superiores; em suma, tudo. O meu desejo era sair dali e ser destacado para outra unidade.

    Alguns instruendos, embora muito poucos, recusaram a boina; presto‑lhes a minha homenagem. Eu não o fiz porque sabia que não me acreditariam; ainda assim, sinto profundo respeito e orgulho por aqueles que tomaram essa decisão.

    Jorge Garcia nos Comandos

    Mais tarde, vendo o filme Full Metal Jacket (título em português: Nascido para Matar), de Stanley Kubrick, ou G.I. Jane - até ao limite, de Ridley Scott, que mostram a formação de tropas de elite destinadas a enfrentar os mais terríveis cenários de guerra, considero, muito honestamente e sem a menor dúvida, que essa instrução é 'suave' comparada com o treino que eu recebi. Por exemplo, se nos dessem a possibilidade de desistir — como mostra o filme de Ridley Scott sobre o treino dos Navy SEALs, supostamente o curso mais duro dos EUA — seria um descalabro. De tempos a tempos, as duas companhias (milicianos e contingente geral) eram formadas na parada e, através dos altifalantes, chamavam os recrutas que, a partir daquele momento, terminavam o curso de Comandos e eram encaminhados para outras unidades do Exército. É desnecessário dizer que eu e, provavelmente, grande parte da minha companhia tínhamos o mesmo desejo: ser chamados para sair daquele inferno.

    Juramento de bandeira do 85º curso dos Comandos Portugueses

    Durante o meu curso, esta prática repetiu‑se, se bem me recordo, cerca de três vezes, e justificava‑se pelo facto de muitos instruendos não possuírem a resiliência psicológica necessária para suportar aquele nível de stress. A principal dificuldade para concluir um curso de Comandos reside na psique do indivíduo e não na sua resistência física, em virtude da intensa pressão psicológica a que somos submetidos — pressão que, se prolongada até ao fim, poderia provocar graves perturbações psicológicas. O processo de seleção e eliminação era, no passado, bastante distinto (cf. Comandos — Sangue Perdido, Bernardo Oliveira); presumo que as alterações posteriores visaram tornar o método mais criterioso.

    É evidente que a criação de tropas de elite que promovem obediência inquestionável passa por técnicas de condicionamento psicológico, tipo lavagem ao cérebro algo que reconheci mais tarde após várias leituras, nomeadamente em «Regresso ao Admirável Mundo Novo', de Aldous Huxley.

    Prova de Choque dos Comandos
1ª PARTE HINO & OPERAÇÕES