🕯️ EPISÓDIO DA FONTE DA TELHA
Eu tinha vinte e poucos anos, era nos anos 80. Estava com a minha namorada, a sobrinha dela e a minha filha — duas crianças pequenas. Estávamos num restaurante na praia, ao final do dia, na Fonte da Telha, um que existia (ou ainda existe) logo à entrada, do lado esquerdo. Estávamos no terraço quando vi, ao longe, dois indivíduos a aproximarem‑se, incomodando e molestando as pessoas com quem se cruzavam. Achei estranho — e vinham exatamente na direção do local onde estávamos. Senti um receio imediato. Eles entraram no restaurante e subiram ao primeiro piso, ao terraço onde eu estava com a minha namorada (mais tarde minha mulher) e as miúdas. Quando passaram por mim e me olharam, vi-lhes os rostos e fiquei chocado: tinham a perfídia, a maldade estampada na expressão. Eram já homens feitos, com uma morfologia quase primitiva — uns autênticos “cadastrados”.
Sem carro, decidi sair dali rapidamente. Subimos a estrada de terra — que o meu pai, muitos anos antes, mandara alargar para levar os turistas do Muxito à praia — cerca de 500 a 1000 metros, até à estrada principal, na esperança de apanhar um autocarro. Quando finalmente lá chegámos, talvez uns 10 minutos depois, não estava ninguém no local e parei junto à berma. Ao olhar para o lado… tinha os dois energúmenos ao meu lado, a meros 1 ou 2 metros de distância. Mais tarde, as miúdas contaram que os tinham visto a perseguir-nos e a esconderem-se, mas, por ingenuidade, não me alertaram.
Estávamos completamente sozinhos no mato: eu, duas crianças, a minha namorada… e aqueles dois homens, provávelmente armados. Tudo aconteceu muito depressa, nem tive tempo de lhes dizer fosse o que fosse, porque naquele exato instante passou um carro com um casal. Fiz sinal a pedir boleia e, contra todas as probabilidades… pararam. Entrámos no carro em silêncio. Os dois homens ficaram incrédulos. Era praticamente impossível alguém parar naquela situação — éramos vários, e o aspeto daqueles indivíduos assustaria qualquer pessoa. Mas pararam… e “salvaram‑nos”. Durante anos chamei a isso a minha “estrelinha”. Hoje começo a perceber que talvez fosse algo mais.