CELESTIALOGIA

🕯️ A YOGA

Há muito que perdi a ingénua aspiração de encontrar a verdade/Deus, e a minha procura nos últimos anos tem-se resumido à esfera da meditação como uma técnica que nos pode proporcionar algum conhecimento e paz interior. Nesse processo descobri algo muito interessante, e que nos pode ajudar em diversas situações, mas já vamos lá. Entretanto, para perceberem o meu percurso espiritual, vou ter que explicar, nos próximos parágrafos.

A PRESUNÇÃO

Esta minha caminhada ao longo dos anos - já vem dos tempos de infância, porque lembro-me de que, a uma determinada altura, passou-me pela cabeça ser padre e, inclusive tive formação católica : andei alguns anos nos escuteiros católicos ( Corpo Nacional de Escutas) e tive catecismo por iniciativa própria - levou-me ao contacto com diversas religiões e seitas religiosas tão dispares como : Testemunhas do Jeová, Igreja Maná, AMORC , Lectorium Rosicrucianum , Igrejas espíritas, Maharaji (Prem Rawat) e diversos centros e retiros de ioga e meditação transcendental.

E, invariavelmente, após um breve contacto, ficava sempre decepcionado com o fanatismo e mentiras que professavam. Quase todas elas transmitiam a mesma ideia: são a única via e a restante humanidade está condenada a viver na ignorância e perdição. Não havia pachorra para tanta presunção e estupidez!

um dos poucos segredos da Yoga

O ECTOPLASMA

Esta minha persistência provavelmente tem raízes genéticas, porque tive um avô paterno que foi padre (apesar de só ter dado uma missa e de o malandro ter acabado por casar com a minha avó já em terceiras núpcias (!)) e um convicto espírita que usava a sua esposa que era médium nessas sessões: a minha avó. Contava o meu pai que ele conseguia, por vezes, a materialização dos espíritos, que consiste na emanação de um fluido branco através do corpo da médium, denominado ectoplasma, que toma diversas formas, inclusive a humana. É neste fenómeno que se baseia a imagem dos fantasmas como figuras etéreas brancas. O meu próprio pai tinha a capacidade de descobrir se uma pessoa era médium e a colocar em transe. Soube mais tarde que, à 'boca pequena', chamavam-lhe bruxo na empresa onde trabalhava.

Obviamente, esta minha trilha espiritual levou-me a ler uma infinidade de livros. Rapidamente passei da literatura meramente lúdica para a literatura metafísica. Os livros de aventuras de Enid Blyton, Júlio Verne e principalmente o extraordinário Emilio Salgari, que durante anos me levou a viajar pelas paragens mais exóticas do planeta em fantásticas aventuras, deram inicialmente lugar ao aldrabão Lobsang Rampa , Carlos Castaneda, Jacques Bergier e outros autores esotéricos. Depois, procurei nos grandes escritores ajuda, e romances como 'Fio da navalha', a 'Ilha' e 'Sidharta', ajudaram-me na convicção de que, se queria a verdade , teria que me inclinar para o místico oriente (como a maioria das pessoas que fazem este percurso), nomeadamente para religiões como o Hinduísmo e, principalmente, o Budismo. Cheguei à conclusão que Deus não existe ! existe, sim, no Universo, um tipo de energia muito especial que anima todos os seres vivos (ideia panteísta) . Ao fim e ao cabo, é a vida! Agora, a questão que se punha era se, quando morremos, essa energia se dissipa ou se mantém junta (não perdendo uma certa identidade), porque ela não desaparece (como Lavoisier dizia "na natureza nada se perde tudo se transforma"), e se podemos ter um contacto mais estreito com ela, de forma a conhecer melhor o universo e a nós próprios.

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O AGNÓSTICO

Portanto, acabei inevitavelmente por chegar à conclusão de que o único caminho espiritual a percorrer se resume a explorar um processo de introspecção chamado de meditação, que consegue provocar estados de espírito que proporcionam bem-estar físico e emocional, lucidez, corrigir algumas deficiências de personalidade (ocupando o papel da nossa imprevisível e cara psicoterapia) e ganhar algumas habilidades circenses, como dominar a dor e até privar o organismo de necessidades básicas, como comer, dormir e respirar (obviamente, durante algum tempo).

Tem-se feito experiências nos últimos anos, nomeadamente estudado homens sob um transe meditativo e, recorrendo à imagiologia por ressonância magnética, conseguem verificar que o seu cérebro apresenta padrões completamente anormais, para além dos seus sinais vitais (pulsação e tensão arterial) serem dignos de um fenómeno.

Mas, mesmo assim, ainda persistia uma dúvida pertinente: através desse controlo da mente, consegue-se atingir a tal 'iluminação' que tanto o Oriente apregoa ? A tal iluminação que os budas (homens santos) pretensiosamente atingiram. Para quem não está familiarizado com o termo, iluminação é o equivalente à santidade no contexto judaico-cristão. A realidade é que, se procurarmos por verdadeiros homens santos, simplesmente não os encontramos. Uma ida à Índia (a Meca espiritual) será completamente infrutífera, como tem sido constatado por muitos ao longo dos séculos, apesar das centenas de pretensos iluminados com que nos iremos cruzar. Até o supostamente imaculado Dalai Lama, talvez a actual figura pública mais próxima da santidade, tem encoberto o que se passava naqueles mosteiros budistas ao longo dos tempos : pedofilia , escravatura infantil e todo o tipo de abusos. E, se num passado recente houve um homem que mais se aproximou dessa imagem foi Gandhi, um homem meditativo, que professou o princípio da não-agressão como um meio de revolução como o fez Jesus Cristo. Mas, curiosamente, o inigualável Tolstói com quem ele se correspondia e era um confesso admirador, também atingiu esse pacifismo sem a bendita meditação.

O SEGREDO

"Por um momento, desejou no seu âmago voltar a ser o antigo e anónimo Paquito. Rebolava de um lado para o outro, tentando evitar acordar a sua Ana, que já dormia profundamente, o que o deixou ligeiramente frustrado por ela não estar afetada pelas mesmas preocupações. Até que se lembrou da sua antiga técnica : assim como reduzir a pulsação induz o nosso cérebro a associar à ausência de problemas - quando temos stress, a pulsação aumenta – uma respiração tranquila e muito, muito lenta, leva este a pensar que estamos quase a dormir . E acabou por funcionar, mas só após algumas horas, dada a ansiedade que o esmagava." Jorge Garcia, o Futebol de Pepe