🖥️ O MEU ESGOTAMENTO
1. O MEU BURNOUT
Aconteceu‑me há muitos anos um episódio que, na altura, não compreendi. Ao acordar, tive uma alucinação hipnagógica: o meu cérebro não parava de gerar imagens de zeros e uns, como se estivesse a ver o funcionamento binário dos computadores. Trabalhava como programador informático e, apesar de já estar acordado, não conseguia interromper aquele loop mental. Foi uma experiência assustadora. Uma ou duas vezes, aconteceu que o meu cerebro, era só instruções informaticas, tipo Input, while, if, for ...
Meses mais tarde, acabei por entrar num burnout profundo. Deixei de conseguir concentrar-me ou mesmo raciocinar. Não conseguia programar uma única linha de código, literalmente . Na verdade tenho a ideia que nem contas simples aritméticas eu conseguia calcular. nessa fase ia almoçar a um restaurante perto do trabalho, mas comecei a cometer tantos erros e distrações que, por vergonha, deixei de lá ir. Apanhava o barco a horas erradas, colocava objetos no frigorífico sem perceber.
Chegou um momento em que percebi que não podia continuar assim. Fui falar com o meu chefe e disse‑lhe que devia estar a sofrer um esgotamento — na altura ainda não se falava em burnout — e que precisava de parar para recuperar. Prometi que, quando estivesse melhor, voltaria.
2. BURNOUT OU ESGOTAMENTO ?
Burnout e esgotamento nervoso são frequentemente confundidos, mas descrevem situações diferentes. Burnout é um estado de exaustão ligado especificamente ao stress laboral crónico, reconhecido como doença profissional e caracterizado por perda de energia, distanciamento emocional do trabalho e quebra de desempenho. Já o esgotamento nervoso é um colapso emocional mais amplo, que pode surgir por qualquer tipo de stress intenso — familiar, financeiro, emocional ou profissional — e envolve sintomas como ansiedade marcada, irritabilidade, insónia e sensação de incapacidade para funcionar. Enquanto o burnout nasce do contexto profissional e evolui de forma gradual, o esgotamento nervoso pode surgir de forma mais abrupta e afetar todas as áreas da vida.
3. SEQUELAS
Desde então, nunca mais recuperei totalmente. Antes conseguia programar sete ou oito horas seguidas; depois daquele episódio, no máximo aguento três ou quatro horas de concentração, o que condicionou profundamente a minha vida profissional. Na prática, acabei por abandonar a programação informática. Curiosamente, a dificuldade não se manifestava apenas na programação : não conseguia manter foco por mais de três ou quatro horas em qualquer tarefa que exigi-se concentração.
A solução acabou por ser dedicar-me a tempo inteiro à cerâmica, que era apenas um hobby desde os meus 20 anos. Para mim, tornou-se completamente impossível trabalhar para outras pessoas. A última experiência profissional foi tão desgastante que se tornou verdadeiramente traumatizante.
4. SINTOMAS DE BURNOUT
- Emocionais — exaustão, irritabilidade, apatia.
- Cognitivos — dificuldade de concentração, lapsos de memória, lentidão no raciocínio e dificuldade em realizar tarefas que antes eram simples.
- Físicos — fadiga persistente, dores musculares, alterações do sono e sintomas gastrointestinais.
- Comportamentais — isolamento, queda de desempenho, absentismo.
Se os sintomas prejudicam o trabalho, as relações ou a segurança pessoal, é necessária avaliação profissional.
5. CAUSAS E FACTORES RISCO
- Ambiente de trabalho — carga excessiva, falta de controlo, expectativas contraditórias.
- Organização — cultura de alta pressão, falta de apoio e reconhecimento.
- Individuais — perfeccionismo, dificuldade em estabelecer limites, excesso de responsabilidade.
- Sono e stress — privação de sono e stress crónico aumentam a vulnerabilidade ao burnout e a sintomas como alucinações hipnagógicas e défices cognitivos.
6. PREVENÇÃO
- Higiene do sono — horários regulares, ambiente escuro, evitar ecrãs antes de dormir.
- Limites no trabalho — pausas regulares, delegar tarefas, negociar carga e prazos.
- Gestão do stress — técnicas de relaxamento, terapia cognitivo‑comportamental, apoio social.
- Recuperação cognitiva — descanso prolongado, reabilitação cognitiva quando indicada e retorno gradual às tarefas complexas.
Estas medidas são gerais; a avaliação clínica orientará intervenções específicas.