DESPORTO

⚽ O DESPORTO REI

O futebol tem qualquer coisa que escapa às explicações simples. Não é apenas um jogo, nem apenas um desporto: é um fenómeno emocional, cultural e quase espiritual. Há modalidades extraordinárias, como o andebol, o basquetebol ou o voleibol, mas nenhuma delas provoca esta mistura de pertença, memória, identidade e irracionalidade que o futebol desperta. E talvez seja precisamente essa irracionalidade que o torna tão diferente de tudo o resto.

A magia do futebol

Existem algumas características intrínsecas a este desporto que o elevam a outro patamar: a ligação emocional que atravessa gerações e que faz do adepto alguém que vive intensamente o seu clube, não só durante as partidas, mas no seu dia a dia, encarando todas as contingências como algo pessoal. É quase religioso.

A imprevisibilidade é outra vantagem. No ténis, por exemplo, a percentagem de vitórias do favorito é incomensuravelmente superior à do futebol. Quantas e quantas vezes um underdog surpreende. Mas, a meu ver, talvez o maior fator que diferencia este desporto dos outros seja haver poucos golos numa partida, o que provoca uma explosão emocional quando eles acontecem. Este fator, aliado ao “peso” de cada golo, leva a momentos inolvidáveis, como no jogo da nossa amada seleção em 2016, em França, ou neste épico jogo do Benfica. Momentos como estes levam os adeptos a uma explosão de alegria que é muito difícil de replicar noutras modalidades.

O futebol na sua simplicidade e facilidade de acesso, basta uma bola e umas balizas improvisadas, é um desporto genuinamente democrático. Praticamente em todas as partes do mundo, em campos pelados ou em belos relvados, jovens de diversas origens e estratos sociais se unem no fascínio por este jogo coletivo. Mas existe uma premissa : é crucial começar desde tenra idade.

Ainda me lembro do antigo preconceito com este desporto e inclusive em certos círculos sociais raramente se admitia o gosto por ele. Havia uma associação à plebe e a mentes mais prosaicas. E às vezes penso que muito contribuiu o fato de os rapazes com mais aptidão para os estudos normalmente serem os menos aptos para o futebol, e em última análise para o desporto. Raramente encontrei, na minha infância, alguém que reunisse ambas as qualidades. Uma das primeiras figuras públicas que me recordo a manifestar publicamente o fascínio pelo futebol foi Pedro Santana Lopes, que me atrevo a mencionar, porque não sou nem seu conhecido, nem amigo e muito menos da sua cor partidária. Hoje, são outros tempos, quase toda a gente aprecia, sendo o seu gosto completamente transversal na nossa sociedade, e a nossa seleção e o seu antigo treinador Luiz Felipe Scolari muito contribuíram.

— Excerto do meu Romance Futebolístico, disponível aqui.
Sou do Benfica

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