DESPORTO

⚽ O ÉPICO JOGO

Há noites que ficam gravadas na história de um clube, não apenas pelo resultado, mas pela forma como acontecem. O Benfica 4–2 Real Madrid , de 28 de Janeiro de 2026, foi uma dessas noites raras, intensas, quase irreais, uma daquelas em que o futebol deixa de ser apenas jogo e se transforma em memória coletiva. O Estádio da Luz viveu um turbilhão de emoções e um golo improvável num final absolutamente cinematográfico: Trubin , o guarda‑redes, marcou nos últimos segundos (já depois de terminado o tempo extra), selando a vitória e empurrando o Benfica para o play‑off da Champions. Foi o tipo de momento que ninguém esquece. O tipo de jogo que se conta aos amigos, aos filhos, aos netos. Uma noite em que o Benfica não jogou apenas contra o Real Madrid — jogou contra a lógica, contra a história, contra o impossível… e ganhou.

Trubin, o herói do Benfica Real Madrid

CONTEXTO

O Real Madrid partiu para este jogo a 1 ponto do líder Barcelona no campeonato espanhol e em 3.º lugar na Champions League. Dos 36 participantes desta competição — no segundo ano deste novo formato — passam diretamente à fase seguinte os oito primeiros, enquanto 16 equipas seguem para o chamado play‑off de acesso aos oitavos de final. Doze equipas são eliminadas.

O Benfica, além de precisar da vitória, poderia ainda necessitar de marcar vários golos para melhorar o seu goal‑average e, mesmo assim, continuava dependente do resultado de vários outros jogos, nomeadamente de pelo menos cinco destes resultados:

  • Ath. Bilbao perder ou empatar em casa com o Sporting

  • Leverkusen perder ou empatar em casa com o Villarreal

  • Monaco perder em casa com a Juventus

  • PSV perder em casa com o Bayern Munique

  • Olympiacos perder ou empatar fora de portas com o Ajax

  • Nápoles perder ou empatar em casa com o Chelsea

  • Club Brugge perder ou empatar em casa com o Marselha

  • Copenhaga perder ou empatar fora de portas com o Barcelona

  • Bodo/Glimt perder ou empatar fora de portas com o Atl. Madrid

jornal Benfica na noite histórica

Portanto, as probabilidades de ultrapassar esta fase eram diminutas — para não dizer quase impossíveis — ainda para mais jogando contra o colosso espanhol e numa época em que Mourinho demorava a construir uma equipa consistente. Prova disso era a situação em que o Benfica se encontrava a nível nacional: 3.º lugar no campeonato, a 10 pontos do líder, e já eliminado tanto da Taça da Liga como da Taça de Portugal — e também nesta competição internacional, colocado em zona de despromoção.

Percurso

  • Benfica 2-3 Qarabag

  • Chelsea 1–0 Benfica

  • Newcastle 3–0 Benfica

  • Benfica 0-1 Bayer Leverkusen

  • Ajax 0–2 Benfica

  • Benfica 2-0 Nápoles

  • Juventus 2–0 Benfica

No entanto, o Benfica de Mourinho, após o despedimento de Bruno Lage (*), mostrava nos embates contra os grandes — tanto a nível interno como externo — uma equipa que raramente se inferiorizava perante os adversários, mas que invariavelmente não conseguia vencer.

A massa associativa começava a perceber que o problema estava num plantel fraco e, sobretudo, numa gritante falta de eficácia por parte dos atacantes. O desperdício de 'golos cantados' sucedia-se em catadupa. Era sempre o mesmo padrão: falta de pontaria e ausência de instinto de matador. Muitas vezes, quando podiam alvejar a baliza com um remate de primeira, optavam por fazer a receção para “ajeitar” a bola e tentar um remate mais certeiro — permitindo, com isso, que o defesa caísse em cima deles e a oportunidade se perdesse.

O rei Trubin

Artigo sobre a magia do futebol

O JOGO

Equipa

  • Trubin

  • Dedic

  • Tomás Araújo

  • Otamendi

  • Dahl

  • Barreiro

  • Aursnes

  • Prestianni

  • Sudakov

  • Schjelderup

  • Pavlidis

O Benfica foi demolidor na primeira parte, desperdiçando muitas oportunidades — o habitual — mas, mesmo assim, chegou ao intervalo a vencer por 2–1. O próprio Mbappé, no final do jogo, reconheceu que o Real Madrid poderia perfeitamente estar a perder por 5–1 ao intervalo. Na segunda parte, a hegemonia do Benfica dissipou‑se, embora o Real Madrid também não tenha criado grandes ocasiões. Cada equipa acabou por marcar um golo, fixando o resultado em 3–2 antes do tempo extra.

Chegámos ao tempo extra e aos acontecimentos que tornaram esta noite épica. A partida estava atrasada e era um dos últimos jogos — senão o último — que faltava terminar nesta derradeira jornada. Naturalmente, todos os encontros decorriam à mesma hora. Para o Benfica, atendendo a tantos condicionalismos (*), a pontuação mudava constantemente, mas nestes momentos finais, e já sem mais jogos em andamento, ficou claro que bastava apenas mais um golo para garantir o apuramento para o play‑off.

Os locutores de rádio e televisão, assim como o público nas bancadas, aperceberam‑se dessa oportunidade. Inexplicavelmente, porém, a equipa técnica não transmitiu essa informação para dentro de campo. Pelo contrário: os jogadores queimavam tempo e Mourinho fazia substituições. Algo incrível, inadmissível, que Mourinho terá de explicar (!). Só com o barulho infernal vindo das bancadas, a condenar este comportamento, é que, finalmente, nos instantes derradeiros, os jogadores perceberam o que estava em causa. Tenho a sensação de que isso já aconteceu depois de terminado o tempo extra.

O Real Madrid tinha acabado de ficar com 9 jogadores e esperava‑se que o árbitro desse o jogo por terminado a qualquer momento, porque tinham sido atribuídos 5 minutos de compensação e já iam 6 ou 7 minutos. Aursnes, posicionado no meio‑campo adversário, sofre uma falta e aproveita para cobrar o livre, enviando um remate direto para a grande área. Seria a última oportunidade.

Mourinho manda toda a gente subir, inclusive Trubin (tem praticamente 2 metros de altura), ficando apenas o pequeno Dahl na retaguarda. E então acontece magia no último lance do jogo: Trubin, no meio de toda aquela multidão de jogadores, cabeceia para golo aos 98 minutos. Foi a loucura no Estádio da Luz e por esse mundo fora.

Eu, a ouvir o relato num rádio de pilhas (estava sem eletricidade devido à tempestade Kristin), dei um urro tão grande, e acabei a chorar como uma criança. Foi, quase de certeza, um dos momentos mais incríveis que o Estádio da Luz viveu em toda a sua história. E assim, enquanto o Real Madrid era eliminado do apuramento direto, o Benfica garantia a presença no play‑off num jogo eterno.

A explosão


Bruno Lage

Bruno Lage, o treinador que na época passada perdeu literalmente a oportunidade de ganhar o campeonato — num ano em que o Porto esteve praticamente fora da corrida e o Sporting, após a saída de Rúben Amorim, perdeu imensos pontos — ainda conseguiu chegar à liderança, mas foi sol de pouca dura: na jornada seguinte já era ultrapassado.

O avançado Belotti

Recebeu reforços durante a época, ao contrário do Sporting, e mesmo assim não conseguia manter uma estrutura ofensiva estável, com contínuas alterações no meio‑campo e no ataque, excetuando a linha defensiva e o avançado Pavlidis, que se revelava um autêntico perdulário. As opções eram desastrosas, basta lembrar a entrada em momento cruciais do avançado Belotti, um jogador que passado poucas semanas foi dispensado por uma bagatela. No início da época 2025‑2026, com a entrada de mais jogadores escolhidos por ele, continuava com as mesmas incertezas e a apresentar um futebol pobre. As substituições e as conferências de imprensa eram deploráveis e ainda existiu o episódio na garagem do clube , que seria suficiente para um despedimento com justa causa. Ao contrário, Mourinho — e eu nem fui fã do seu regresso — começava a mostrar que percebia de futebol, apesar de os resultados ainda não materializarem a solidez e a coerência que estava a implementar no Benfica.

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