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📖 A VIDA AVENTUROSA DE JACK LONDON | IRVING STONE

nº de estrelas dá a pontuação do livro

Já tinha uma profunda estima por este homem , desde que meu pai me deu a conhecer, mas agora que li esta biografia, que é fantástica, revelando-se o autor um excelente biógrafo, fiquei com uma efectiva reverência, de facto uma figura ímpar na história da literatura. Reuniu num só homem , uma grande intelectualidade e um dom de narrar histórias com uma personalidade simplesmente fascinante. Se houve homem que viveu a vida em toda a sua plenitude, foi Jack London ! Teve muitas paixões, mas penso que o prazer da leitura e o mar acompanharam-no sempre. Possui-a 4.000 livros e era efectivamente um leitor compulsivo, e tinha tal como eu este pensamento :

Se me considerarem culpado e me meterem seis meses na cadeia, ficarei muito satisfeito por me darem tempo para escrever um par de livros e ler à minha vontade.

E eu hoje, em solidão, nestas paragens, em Castelo Branco, agradeço à leitura de me ajudar a ter ainda muito prazer de viver ... o que infelizmente não foi suficiente para Jack London.

Jack London, o aventureiro

O ARROJADO JACK LONDON

Jack desde criança que velejava pela baia de São Francisco. Conta-se que não tinha medo do mar, porque navegava com qualquer tempo deixando os velhos marinheiros perplexos que lhe diziam que não poderia realizar semelhantes proezas.

Quando tinha 17 anos embarcou como marinheiro num veleiro o 'Sophie Suderland' e no terceiro dia da viagem apareceu uma tempestade. Na altura estava ao leme e o capitão percebendo a sua capacidade e coragem deixou-o sozinho. Nenhum feito o poderia deixar mais contente e orgulhoso. Mais tarde aproveitou esta experiência para escrever 'Tufão na Costa Japonesa' com que ganhou um pequeno prémio literário de 25 dólares o que o deixou esfuziante. Nesta viagem até foi à Sibéria caçar focas.

Gostava de combates de boxe e era muito destemido, fama que acompanhou toda a sua vida e na verdade, desprezava os sem coragem.

Um homem que é esbofeteado ou insultado e não reage -não vale nada! Não quero saber se é capaz de exprimir os mais sublimes pensamentos, não me interessa já».

Quando se aventurou no Pacifico num veleiro desenhado por si e que ninguém acreditava - com razão porque estava mal projectado e mal construido apesar da fortuna que custou - num impulso e contra toda a sensatez, mostrou uma vez mais ao mundo de que fibra ele era feito.

Pretendia-se uma volta ao mundo, no principio do século XX e que muito poucos velejadores o tinham feito, e o mais surpreendente, acompanhado por uma tripulação completamente inexperiente. Só muitos dias depois de estar no mar, Jack London descobriu que Roscoe Eames não tinha procurado aprender coisa alguma de navegação durante os meses em que tinha sido pago para isso, e além disso não era capaz de dar a posição do navio. O Snark estava a meter água e perdido em qualquer ponto do Pacífico! Pegou ele próprio nos livros de navegação e estudou-os a fundo e tornou-se um eximio navegador oceânico.

Jack tinha agora 25 mil dólares enterrados no barco encalhado. Os seus amigos mais íntimos aconselharam-no a abandonar a tentativa. Se algum dia chegasse a fazer-se ao mar, no Snark, seria um suicídio. Jack berrava: «Não posso abandonar isto!». Dia após dia, ia-se encolerizando cada vez mais contra os operários incompetentes, os materiais defeituosos que lhe tinham mandado os comerciantes que o massacravam com contas, os jornais que estavam constantemente a ridicularizá-lo. Se agora admitisse a derrota seria o bobo do país, o que o cobriria de vergonha para o resto da vida. Era homem de palavra. Havia de partir no barco para Haway ainda que isso lhe custasse a vida. Antes uma morte de herói nas profundezas do Pacífico do que ser troçado pelos trabalhadores e comerciantes que o exploravam, os jornais que o cobriam de ditos satíricos, as multidões de basbaques que tinham rido dele, chamando-lhe maluco, e que apostavam que o Snark não chegaria a Honolulu, oferecendo uma vantagem de um para vinte nas apostas, que ninguém aceitava. Escreveu durante esta louca aventura, talvez a sua melhor obra : Mardin Eden.

O Snark de Jack London

A uma determinada altura quis navegar directamente do Hawai para as Marquesas, o que era considerado uma impossibilidade atendendo aos ventos e correntes contrários. Conseguiu este feito , mas tiveram quase a morrer de sede . Durante esta viagem, chegaram muitas vezes a estarem quase sem dinheiro, o seu eterno dilema. As aventuras são incontaveis, desde tempestades, a ataques de nativos, doenças, iminentes naufragios, etc. Jack no seu melhor.

Enquanto esteve no Hawai, voltou lá mais vezes após esta viagem em férias, passou uma semana entre leprosos na ilha de Molokai , onde Éric de Bisschop , anos mais tarde chegou muito debilitado.

Quando Jack London foi para a Coreia como correspondente de guerra, meteu-se em grandes aventuras, de forma a chegar à linha da frente . Um fotógrafo inglês que o encontrou, escreveu estas linhas :

Quando London chegou a Chemulpo não o reconheci. Era uma ruína física. Tinha as orelhas congeladas, tinha os dedos congelados, tinha os pés congelados. Disse-me porém que isso não tinha importância desde que pudesse ir para a frente. Posso afirmar que Jack London é um dos homens mais corajosos e resistentes que já tive a boa fortuna de encontrar. É tão heróico como qualquer personagem dos seus romances.

A PERSONIFICAÇÃO DA GENEROSIDADE

A sua generosidade e honestidade já naquela época e na Califórnia, era um oásis no deserto :

Jack procurou receber algum dinheiro das centenas de homens e mulheres a quem tinha emprestado um total de cinquenta mil dólares. Embora todos lhe houvessem jurado que pagariam até ao último centavo, apenas conseguiu receber cinquenta dólares”.

Ao longo da sua curta vida (suicidou-se com 40 anos) , quando começou a ganhar muito dinheiro era constantemente enganado por quase todos que se cruzavam com ele. Mas no entanto esta personalidade extremamente simpática e afável quando descobria que o estavam a enganar transformava-se num autentico 'pitbull', outra afinidade que eu e meu pai temos com ele. Quem o acusa de ser um escritor racista como Kipling, desconhece que este homem sustentou a sua mãe de leite, negra , mesmo quando tinha pouco dinheiro. Tinha uma amor incondicional por esta mulher que lhe tinha dado carinho como se de um filho se trata-se, quando a sua turbulenta mãe aparentemente falhou neste papel. A mamã Jeny, era esse seu nome, chegou a emprestar-lhe dinheiro para a compra de uma embarcação para a pesca às ostras: tinha 15 anos e começou a navegar no meio dos rudes marinheiros que se dedicavam a esta pirataria, porque ela era desenvolvida numa ilha privada. Ao fim de pouco tempo provou que era um dos melhores marinheiros e sem medo para zaragatas e que bebia tanto ou mais do que eles. Tornou-se um deles e quase que ficou alcoolico nesta tenra idade. No fim da vida voltou novamente ao consumo execssivo do alcool. Era também um fumador inveterado.

A generosidade era tão natural como respirar, para ele. Todos os vagabundos da América sabiam que o mais ilustre dos seus antigos camaradas fornecia sempre uma refeição, uma bebida e uma cama, e a maioria deles incluía o seu rancho no seu itinerário. Jim Tully, que a exemplo de Jack tinha alcançado fama como romancista depois de ser muito tempo vagabundo das estradas, conta que uma noite em Los Angeles, quando um vagabundo pediu a Jack dinheiro para uma cama, Jack lhe meteu na mão uma moeda de cinco dólares de ouro. Johnny Heinhold conta que no saloon Last Chance, depois de ter bebido um gole de uma garrafa de uísque deixou uma moeda de cinco dólares de ouro no balcão e pediu: «Johnny, diga aos rapazes que esteve cá Jack London, e peça-lhes que bebam à minha saúde».

Se alguém lhe pedia dinheiro e ele não tinha, ia ele mesmo pedi-lo emprestado. Quando lhe falaram numa mulher Australiana que perdera os 2 filhos na Grande-Guerra, remeteu-lhe 50 dolares por mês, espontaneamente e durante toda a sua vida. São imensas as histórias da generosidade de Jack London, ficam aqui apenas algumas mas sugestivas. O biógrafo estima que ele tenha gasto com os outros 2/3 dos seus rendimentos. E gastava pouco consigo mesmo, comia e vestia com simplicidade mas gastava fortunas a hospedar amigos e só raras vezes aceitava retribuição pela sua hospitalidade.

O LOBO

Era fascinado pelo animal lobo , que se pode constatar por empregar a palavra em varios titulos de contos e livros e inclusivé julgava-se o 'lobo conquistador' : os indios haviam posto o cognome lobo, ao branco conquistador, e parece que Jack às vezes assinava com este nome. Quando li este livro desconhecia este seu fascinio e que também é meu, porque até tenho esse animal, , tatuado no meu braço.

O lobo dentro de jack London

Estava a construir no seu enorme rancho uma casa que se iria chamar 'a Casa do Lobo'. Essa casa que foi um dos seus grandes projectos estava segura contra incendios, atendendo aos materiais e técnicas utilizadas. Ironicamente incendiou-se totalmente, um dia antes da inauguração, aparentemente alguma vingança pessal de algum trabalhador . Foi um dos grandes desgostos que o escritor teve na vida. Tinha sido muito criticado por estar a construir um 'palacio' - alguns afirmaram que seria a mais bela casa da América - e professar o socialismo. Na construção desta casa supôe-se que gastou talvez mais de 100.000 dolares.

A casa do lobo

Cansado das sua aventuras começou a interessar-se por agricultura e com o entusiasmo que punha em tudo, em pouco tempo adquiriu conhecimentos que bastaram para o tornar uma autoridade. A lavoura tornou-se um seu hobby e rápidamente quis revolucionar os métodos tradicionais empregues. Chegou a ponderar criar uma comunidade apenas com homens de integridade pessoal e amor à terra.

POSSES & DINHEIRO

O sucesso literário chegou aos 23 anos. Passou de uma vida quase sempre em grandes dificuldades económicas, que até a comida muitas das vezes faltava, em que recebia poucos dolares mensais em trabalhos braçais para o recebimento de cheques de milhares de dolares e isto em inicio do seculo XX. Numa determinada altura ganhava 75.000 dólares anuais e gastava mais de 100.000. Tudo o que possuia estava hipotecado, nomeadamente a sua propriedade de 750 hectares. Desde jovem que assumiu o sustento da sua familia e quando começou a ganhar muito dinheiro começou a sustentar muitas mais 'familias'. Uma das suas maiores fraquezas foi ter passado a vida, a gastar mais do que recebia : andava sempre aflito com falta de dinheiro por muito que recebe-se.

No seu rancho chegou a sustentar mais de 500 pessoas , com os seus 100 homens e familias respectivas. Tinha dado instruções a Eliza (filha do seu padrasto e que se tornou o seu braço direito) para que nunca mandasse embora um homem que procurasse trabalho antes de ter ganho três ou quatro dias de salário, e comido três ou quatro refeições decentes. Se não houvesse trabalho para esse homem, haveria que lho arranjar, quer fosse tirar pedras das ravinas, ou levantar cercas entre os campos. Na maior parte do tempo havia cerca de 10 presos em liberdade condicional trabalhando e vivendo no rancho.

UM SER SUPERIOR

Era um homem extremamente carismático que a sua simples presença, mexia com os presentes. Não era nada snob, e a prova é que na sua casa, muito frequentada, tanto encontravam-se figuras eminentes como vagabundos e marinheiros que ele conheceu na sua anterior 'vida' .

Muitas vezes Jack durante as noites claras vinha cantar com eles (os trabalhadores do seu rancho) , beber um copo de vinho tinto e acre e discutir problemas da construção surgidos durante o dia. Forni deixou este testemunho: «Jack foi o melhor homem que encontrei. Gentil para todos, nunca o vi aparecer na obra sem um sorriso. Era um excelente democrata-cavalheiro nobilíssimo, um homem que vivia para o amor da família e para o amor dos trabalhadores. Em quatro anos nunca ouvi dele uma palavra áspera ou uma acusação de que estávamos a trabalhar devagar ou mal». A hora dos operários abandonarem o trabalho apertava--lhes a mão a um por um, desejando-lhes boa noite e depois ia passear com Brown Wolf pelo pomar respirando o fresco odor da terra, dos frutos e das folhas.

O socialismo esteve sempre presente na sua vida adulta e tentava subtilmente injectar nos seus escritos. Esta sua posição é altamente louvável nesta época, apanágio de mentes nobres e sensiveis. Muitas vezes discursava para multidões e participava activamente neste movimento, sendo na realidade a sua figura mais proeminente. Foi considerado o pai da literatura proletária na América e o escritor mais popular da classe trabalhadora. Na primavera de 1913, era o mais bem pago, o mais conhecido, o mais popular escritor do mundo, tomando o lugar que pertencera a Kipling no principio do seculo.

CURIOSIDADES SOBRE A SUA VIDA

Escrevia mil palavras diárias da parte da manha : dormia umas 5 horas e começava pelas 8 horas a escrever e que foi sempre a sua única fonte de rendimentos, porque tal como a sua mãe, todos os negócios que se metia acabavam irremediávelmente mal e tinham no passado arrastado constantemente a familia para a pobreza.

Conseguiu o sucesso, já nos ultimos dias do seculo XIX, com muita tenacidade e sem ajuda de nenhum editor ou escritor, e com a crença que o movia : haveria de surgir inevitavelmente para quem tem 'fé, aplicação e talento'.

Gostava de cães tal como o Hemingway e escreveu muitos sobre estes nossos amigos e teve uma fase que o seu maior prazer era cavalgar acompanhado pelo seu cão, Brown Wolf, através dos vastos campos da sua enorme propriedade. Segundo Irving Stone, Jack gostava de escrever sobre cães porque pertenciam a uma especie … leal.

Quem eu queria à mesa comigo

Era um agnóstico e essa falta de espiritualidade que me desagradava imenso na adolescência quando o descobri, anos mais tarde também me converti a essa 'crença' após a minha caminhada espiritual que durou grande parte da minha vida.

Gostava de ler as suas histórias , antes de serem publicadas aos seus amigos e muitos deles lembram-se como uma das mais belas e emocionantes experiencias das suas vidas.

Absorvia tudo o que os convidados lhe podiam dar de sageza ou ignorância, de carácter e pusilanimidade, de beleza e degradação. Nunca se interessava em vencer o oponente, em batê-lo pela força bruta; preocupava-se com a substância íntima da discussão, não com a vitória. Conversava sempre sobre assuntos do interesse do interlocutor. Tinha a profunda curiosidade intelectual do verdadeiro erudito.

LIVROS QUE AINDA PRETENDO LER

  • O VALE DA LUA

  • O VAGABUNDO DAS ESTRELAS

  • A ESTRADA

  • O INCONCEBIVEL E MONSTRUOSO

  • CANINOS BRANCOS (não sei se já li)

  • TACÃO DE FERRO

  • JOHN BARLEYCORN

  • BRILHANTE E ESPLENDOR DE DIA

  • UMA ODISSEIA DO NORTE

  • O FILHO DO LOBO (não sei se já li)