📖 PATRIOTA | ALEXEI NAVALNY
Novichok
Alexei Navalny já tinha sido alvo de um envenenamento com o agente neurotóxico conhecido como Novichok , substância associada a vários casos de envenenamento de opositores russos. Este composto é difícil de detetar após algumas horas, o que historicamente levou a suspeitas de que algumas vítimas teriam morrido de causas naturais. Quando laboratórios alemães identificaram a presença deste agente no caso de Navalny, o episódio gerou forte atenção internacional e pedidos de esclarecimento às autoridades russas, que negaram qualquer envolvimento.
O jornalista búlgaro Christo Grozev conhecido pelas suas investigações independentes, analisou dados obtidos online e cruzou registos telefónicos com listas de passageiros do voo onde Navalny adoeceu. A partir dessa análise, identificou um grupo de indivíduos que, segundo as suas investigações, estaria associado a operações 'proibidas' do Estado russo. O documentário Navalny mostra o próprio Alexei Navalny a telefonar a um dos suspeitos, fazendo-se passar por um funcionário estatal para tentar compreender o que teria corrido mal no ataque a que foi submetido. Numa chamada gravada, um dos interlocutores descreve detalhes do episódio, acreditando estar a falar com um superior hierárquico do kremlin. Este grupo que o FSB recorre para este tipo de actos é constituido por criminosos, sem nenhuma ligação ao estado.
📌 Regresso, prisão e deterioração das condições
Antes do envenenamento, Navalny acreditava que a sua notoriedade o protegeria de um ataque fatal. Sobreviveu após tratamento intensivo na Alemanha, onde recuperou gradualmente capacidades motoras e cognitivas. Apesar dos riscos, decidiu regressar à Rússia, onde foi detido à chegada.
Nos anos seguintes, enfrentou vários processos judiciais considerados por organizações internacionais como politicamente motivados. Foi transferido entre diferentes estabelecimentos prisionais, incluindo uma colónia penal no Ártico, onde as condições eram particularmente severas. Observadores internacionais expressaram preocupação com o seu isolamento prolongado e com a limitação quase total de contacto com o exterior.
A economia planificada
Navalny, refere que a economia planificada era incapaz de satisfazer a procura, mesmo para as necessidades básicas. Havia senhas de racionamento que tinham de ser apresentadas nas lojas para a compra de itens essenciais, como sabão, açúcar, chá, ovos, cereais e óleo vegetal. Nos anos de 1990, ele conta que a mãe tinha que se levantar às 5 da manhã para ir comprar carne, e que ele tinha que ficar todos os dias uma hora numa fila , para comprar leite.
Refere igualmente que os russos habituaram-se a invejar os
produtos dos países 'ocidentais', como itens básicos , tais como pastilhas
elásticas, coca-cola e jeans. E o kremlin sempre apresentando os americanos como
o inimigo nº 1 e a causa de todos os males daquele regime, que revelou ao
mundo a sua ineficácia.
Como diz Navalny no livro :
Como viviam sob tanta pobreza e lidavam com tantas dificuldades, não haveria dúvidas de que, em caso de guerra, os americanos mimados, com os seus luxuosos aquartelamentos e os seus apartamentos individuais para os oficiais, seriam derrotados.
Corrupção
Navalny tornou-se conhecido pelas investigações conduzidas pela sua equipa, que denunciavam práticas de corrupção em vários níveis do Estado russo. Nos seus vídeos e relatórios, descrevia casos de suborno, abuso de poder e enriquecimento ilícito. Também criticava a persistência de práticas herdadas do período soviético, como a falta de transparência e a cultura de desinformação.
O escritor Vasily Shukshin descreveu a sociedade soviética como permeada por “mentiras” — uma metáfora frequentemente citada por Navalny para ilustrar a continuidade de certas práticas.
Segundo Navalny, o suborno é endêmico : até a obtenção de um diploma de ensino superior, é possivel. Existe uma infinidade de 'vistos' que, em sua posse, permite a um cidadão cometer as maiores infrações, até mesmo conduzir bêbado. Na posse dum destes documentos a polícia fica inibida de tomar qualquer providência.
Mentiras, mentiras, mentiras... mentiras como redenção, mentiras como expiação de culpa, mentiras como um objetivo alcançado, mentiras como carreira, como prosperidade, como medalhas, como um apartamento... Mentiras ! Toda a Rússia estava coberta de mentiras,como uma sarna. Vasily Shukshin
o Palácio
Navalny ganhou grande visibilidade internacional quando divulgou uma investigação sobre uma propriedade em Gelendzhik, que descreveu como um palácio associado ao Presidente russo. Uma propriedade 39 vezes maior do que o Mônaco e com um luxo inimaginável. Segundo Navalny , o presidente tem dezenas de palácios. O vídeo, amplamente difundido, apresentava imagens aéreas e documentos que, segundo a sua equipa, demonstravam ligações entre a propriedade e figuras próximas do poder. O homem responsável pelas obras, após a divulgação deste documentário, foi inexplicávelmente preso, e ... apareceu morto.
Outras investigações do seu grupo abordaram alegadas redes de influência envolvendo altos funcionários, empresários e fundações privadas. Navalny argumentava que um pequeno grupo de indivíduos acumulava riqueza e poder desproporcionais, enquanto a maioria da população enfrentava dificuldades económicas. Cabe ainda referir que é normal encontrar, em altos cargos — sejam políticos ou governamentais - individuos ligados ao mundo do crime.
A investigação ao procurador geral Yury_Chaika, chegou ao conhecimento que ele protegeu uma quadrilha muito perigosa e violenta , a 'Tsapki'. Investigaram Vladimir Resin, porque recebia subornos de uma forma descarada e que acabou por ter um confortável assento na Duma a representar a Rússia Unida de Putin.
Outro dos visados nas investigações foi o Medvedev, que descobriram uma rede de fundações de beneficiência para receber dinheiro dos oligarcas e registar as suas mansões de luxo. Muitos destes homens, tem propriedades imobiliárias no estrangeiro.
Prisão e condições no sistema penal
Durante a sua detenção, Navalny relatou condições extremamente duras, incluindo longos períodos de isolamento. Organizações de direitos humanos documentaram casos de abusos no sistema prisional russo, descrevendo práticas degradantes e falta de supervisão independente.
Num dos seus relatos, Navalny descreve uma conversa com a esposa, Yulia, onde expressa receio de não sobreviver ao encarceramento. A comunicação com o exterior foi sendo progressivamente reduzida, e as visitas tornaram-se raras.
Segredei-lhe ao ouvido «Ouve, não quero parecer dramático, mas penso que existe uma elevada probabilidade de nunca mais sair daqui. Mesmo que tudo comece a desmoronar-se, eles darão cabo de mim ao primeiro sinal de que o regime está a ruir. Irão envenenar-me.» «Eu sei», disse-me ela com um assentimento de cabeça, num tom de voz calmo e firme. «Eu também estava a pensar nisso.»
Durante os anos que esteve preso, ninguém estava autorizado a conviver com ele. Esteve constantemente em celas exíguas de isolamento e era submetido a todo o tipo de torturas, mas nunca sem serem fisicas.
"A moral da história é simples: o sistema prisional russo, o Serviço Penitenciário Federal, é dirigido por uma coleção de pervertidos. Tudo no sistema deles tem um toque doentio: as infames violações com as esfregonas, enfiar coisas nos ânus das pessoas, e assim por diante. Não ocorreria a uma pessoa má, mas sã, fazer tal coisa. Tudo o que lemos sobre os horrores e os crimes fascistas do nosso sistema prisional é verdade. Só é preciso uma correção: a realidade é ainda pior."
MOSCOW4
Alexei Navalny, ao longo dos anos, foi descobrindo que o
kremlin é composto por pessoas, cujo 'cartão de acesso' é apenas a lealdade
. Existe uma história real que ilustra bem. O e-mail de um director importante
do FSB foi pirateado;ele era considerado um dos mais inteligentes dessa
organização. Na primeira vez, a senha era Moscow1 e ele mudou
para Moscow2. Obviamente, hackearam-no novamente. Na terceira vez, a
senha era Moscow3.E adivinhem qual era a quarta senha ?
Haaa, e Putin, vejam só, não sabe usar um computador.
Um pôster de 2011 : pôster a satirizar o partido Rússia Unida
Pânico político e regresso final
Após o período de cinco meses de recuperação em Berlim, a 17 de janeiro de 2021, Navalny regressou à Rússia em um voo que foi desviado do aeroporto de Vnukovo para Sheremetyevo, porque milhares de pessoas o esperavam. O medo era tanto, que mal saiu do avião, prenderam-no e nunca mais saiu, até ao seu assassinato final, três anos depois. A prisão de Navalny provocou protestos por toda a Rússia, em que pelo menos 10.000 pessoas foram detidas.
Alexei Navalny, sem dúvida, fez de Putin o seu rival, não se coibindo de chamá-lo literalmente de tudo. E a realidade é que conseguiu infligir-lhe um medo mortal. Ninguém me tira da cabeça que este homem não é terrivelmente medroso : vejam como ele recebia personalidades durante o covid, afastando-se naquelas enormes mesas, com medo de adoecer.
A invasão da Ucrania, um ano depois da chegada de Navalny, não terá sido uma forma de Putin desviar as atenções e fortalecer-se !?