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📖 A ARMA | ALEXANDRE MARTA

nº de estrelas dá a pontuação do livro

'A Arma' é um pequeno livro de memórias de guerra escrito por Alexandre Marta, baseado na sua experiência como alferes miliciano integrado na 33.ª Companhia de Comandos durante a Guerra Colonial. Esteve em Angola de 1971 a 1973 : segundo o autor eram dois anos e meio de serviço militar obrigatório, quando os praças iam de barco e os milicianos/cadetes de avião até à nossa ex-colónia.

O autor relata os dias vividos em campanha, desde a despedida na sua terra natal até ao regresso à família, intercalando memórias com alguns poemas, mormente a reação estabelecida com a sua arma, que presumo que é a tradicional e fiel G3. O tom é pessoal e intimista: memórias de um 'comando' que descreve vivências e emoções e que professa um profundo desprezo por esta guerra e o regime fasciste vigente. Está presente nesta vivência a sedução do mal... Alexandre Marta mais tarde dedicou‑se à docência, e curiosamente leccionou no colégio Campo de Flores (Almada) que eu frequentei.

A guerra do ultramar

PASSAGENS NO LIVRO

Trechos que revelam a conhecida dureza de um curso de comandos - que eu frequentei em 1986, em Santa Margarida - e o espírito inerente a esta verdadeira tropa especial.

Instruendos que quase enlouqueceram quiseram fugir, mas depressa foram apanhados e detidos com vinte dias de prisão. O que contudo mais me impressionou, foi a forma como os humilharam em formatura à frente de toda a gente. Fizeram um discurso absurdo, condenando os desgraçados, chamando-os cobardes, indignos de representarem a tropa de Comandos. Depois despojaram-nos da arma e restante equipamento de combate, atirando tudo ao chão com uma fúria e raiva incompreensíveis, como se fossem inimigos. Fiquei chocado, um pouco desencantado, mas jurei que a mim não fariam aquilo.

Ontem, um soldado ficou cego de uma vista, devido a um estilhaço de granada. Outro partiu a cabeça intencionalmente, para poder baixar ao hospital e sofrer menos do que na instrução. Houve mesmo um que deu um tiro no dedo indicador, para poder ser eliminado. Afligi-me deveras, porque o vi ir para a enfermaria com o dedo todo esfacelado. Em suma, incidentes que não se verificariam, se houvesse um maior sentido de responsabilidade e respeito por parte dos instrutores, mas temos que cerrar os dentes e calar a boca, pois, qualquer reacção, pode implicar a despromoção, e isso não seria nada conveniente.

Foi penosa a caminhada até aqui, mas, finalmente, terei a recompensa de todo este esforço. Não foi fácil chegar ao fim como um dos eleitos. De 500 soldados, só 120 vão ser Comandos. De 75 cabos milicianos, só 35 ficaram. De 33 oficiais, apenas 9 seremos igualmente Comandos.

Os melhores soldados do mundo, com os quais os americanos já tinham resolvido há muito tempo o conflito do Vietnam (segundo os especialistas, os profissionais da guerra).

Agora já não era só matar para sobreviver. Era "necessário" também defender a "honra" de ser Comando, e matar para ganhar o estatuto de veterano. Uma espécie de 'contágio' irritante parecia provocar-me o desejo absurdo de novas e empolgantes missões.

Os Comandos Portugueses na guerra colonial

EPISÓDIO DE AMBRIZ

Este relato fez-me lembrar o caso das “envenenadoras de Nagyrév” na 1º guerra mundial...

O soldado aceitou a reprimenda, mas não se deu por vencido e comentou: "Meu alferes, elas são todas umas putas, e até gostam; ou já não se lembra daquilo no Ambriz?". Lembrava-me, sim..., e muito bem! Foi a situação mais estranha e insólita que vivi (ainda como cadete): O Batalhão encontrava-se em instrução perto de Ambriz, uma povoação situada à beira mar, a norte de Luanda. Sem qualquer explicação, fomos para ali conduzidos e largados como ratos, que vêm subitamente abertas as portas da jaula, onde viveram em cativeiro, e procuram a liberdade às apercebemos de que não havia homens na povoação. Só as mulheres tinham permanecido. O corrupio começou, na pesquisa dos "cobiçados" exemplares. Toda a gente procurava saciar o desejo, fosse com quem fosse. Era uma correria louca pelas ruas, ouvindo-se os comentários mais disparatados: "Já foste àquela pá? Não vás a esta porque está prenha"; "À melhor já tentei ir, mas está lá uma bicha do caraças". E passavam uns pelos outros, numa procura incessante de um prazer de que se viam afastados havia já algumas semanas: “Há uma que até estrela uns ovos entre duas fodas, se lhe acenarmos com uma nota de vinte"; "Ali temos direito a música e tudo; a gaja põe uma grafonola a tocar e sai merengue; baila-se e fode-se ao mesmo tempo"; "Já tenho hora marcada na boazona; agora vou a esta"...