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📖 NAVEGADOR SOLITÁRIO | ERIC TABARLY

nº de estrelas dá a pontuação do livro

'Tabarly, o Navegador Solitário' é mais do que o relato de uma regata: é o testemunho de um homem que, em 1964, atravessou o Atlântico sozinho e venceu a Transat Inglesa contra todas as expectativas. Oficial da marinha francesa e apaixonado pela inovação náutica, Éric Tabarly descreve em detalhe os 27 dias que surpreenderam o mundo da vela, ao chegar a Newport 3 dias antes de Francis Chichester , vencedor da edição anterior, a primeira prova, realizada 4 anos antes.

Este livro é simultaneamente didático e técnico, pois o velejador aborda diversos temas com grande profundidade, como por exemplo os vários tipos de pilotos automáticos existentes na época. Um navegador solitário não pode prescindir dessa invenção, essencial para conseguir dormir sem precisar estar constantemente ao leme, à roda ou à cana. Joshua Slocum, muitos anos antes improvisou um piloto automático durante a primeira viagem ao redor do mundo em solitário, ainda no séc XIX, uma extraordinária aventura, sobretudo considerando que não dispunha de praticamente nenhuma das ajudas de que hoje usufruímos gps, mapas digitais interativos que mostram a rota em tempo real, radar, sondas, rádio emissor/receptor, entre outros.

Tabarly, com o seu Pen Duick II, um Ketch de madeira com 13,60 m, acreditava que, quanto maior o barco, maiores as hipóteses de vencer. Naturalmente, isso exige um equilíbrio com a capacidade de manipular uma grande área vélica, sobretudo face ao esforço físico envolvido nas constantes trocas de velas ao longo do percurso. Como o próprio Tabarly menciona : "Um solitário não pode, com efeito, largar e carregar o pano continuamente. É preciso que o vento refresque ou caia francamente para se mexer no pano." .

Este velejador francês, que morreu no mar, teve um mérito acrescido: ao contrário de muitos participantes da regata, não comunicou com o exterior. Francis Chichester, por exemplo, dispunha de um rádio emissor-receptor. Tabarly, por sua vez, só ao aproximar-se da linha de chegada se apercebeu — incrédulo — de que era o vencedor.

Eric Tabarly

TRANSAT INGLESA (OSTAR)

“Transat” é simplesmente a abreviação de transatlântica, ou seja, uma regata que atravessa o oceano Atlântico. O termo surgiu com a Transat Inglesa (OSTAR), em 1960, e depois passou a ser usado em várias outras provas oceânicas. O nome deste evento náutico mudou várias vezes e no seu início era referido apenas como a primeira corrida transatlântica em solitário, organizada pelo Royal Western Yacht Club, um dos clubes náuticos mais antigos e prestigiados do mundo. Fundado em 1827 em Plymouth (cidade de onde parte a regata), continua a ser uma referência internacional na vela e na organização de competições marítimas.

Na primeira edição desta competição, houve apenas cinco candidatos (dos quais participaram quatro, devido a uma desistência). Em 1964, o número subiu para 14. Na edição seguinte, em 1968, já participaram 35 velejadores, e em 1976 bateu-se o recorde com 125 inscritos. A partir dos anos 1990, o número de participantes começou a diminuir gradualmente : por exemplo, em 2017, apenas 15 barcos alinharam à partida.

Na edição de 1964, muitos dos veleiros tinham pouco mais de 6 ou 7 metros. Jean Lacombe possuía o mais pequeno: um barco com apenas 6,5 metros. Em mar aberto, os barcos pequenos são mais castigados pelas ondas do que os grandes, e têm menor capacidade de avanço contra o vento, como Tabarly observa neste livro.

Pen Duick II

MULTICASCOS

Foi nesta prova, em 1964, que os multicascos participaram oficialmente pela primeira vez numa regata: dois catamarãs e um trimarã, embora ainda com desempenho modesto. Nas edições seguintes, os multicascos tornaram-se progressivamente hegemónicos, contrariando o vaticínio expresso por Éric Tabarly neste livro.

O trajeto escolhido durante a prova é de importância capital e cabe ao skipper decidir. Nesse ano, por exemplo, os multicascos optaram por um percurso muito mais a sul, passando perto dos Açores, para beneficiar de ventos pela popa ou de través, já que tinham fraca performance a bolinar. Curiosamente, segundo Tabarly, o maior problema desses veleiros durante a prova foram as múltiplas avarias, sobretudo devido ao grande esforço a que eram sujeitos o mastro e o velame.

Os multicascos da época eram experimentais e de pequenas dimensões, sem a velocidade nem a robustez dos modelos atuais. Por isso, ficaram muito atrás dos monocascos mais bem preparados, evidenciando que ainda se encontravam numa fase inicial de desenvolvimento. Na prova de 1964, nenhum dos multicascos ultrapassava os 12 metros, muito longe dos gigantes que hoje dominam as regatas oceânicas.

trimarã gigante : Gitana 18

A maior vela do Pen Duick II era um spinnaker com 82 m², e Tabarly tinha de manobrar tudo manualmente, um esforço físico enorme, ao colocar e retirar constantemente as velas (chegava a utilizar 12 tipos diferentes). Hoje, um trimarã de 30 metros pode ter uma área vélica superior a 600 m², mas o skipper consegue gerir tudo com facilidade graças à tecnologia. Se o vento aumenta, basta reduzir a vela com sistemas automáticos, sem precisar arriscar a vida no convés. O skipper dedica-se quase exclusivamente à estratégia e à meteorologia.

Os multicascos modernos conseguem cruzar o Atlântico em apenas 8 a 10 dias, mesmo contra os ventos de oeste, um feito impressionante quando comparado aos 27 dias de Tabarly em 1964. A partir da década de 1980, os multicascos começaram a dominar a Transat Inglesa, quando os trimarãs provaram ser significativamente mais rápidos do que os monocascos.

David Lewis, médico e participante da primeira edição da prova, regressou à regata com um catamarã. Vendeu o consultório e a casa onde vivia e, com a companheira e as filhas, partiu para uma viagem ao redor do mundo a bordo do seu veleiro de 12 metros. Foi este homem que realizou a primeira circum-navegação num multicasco e se tornou conhecido pelos seus estudos sobre os sistemas tradicionais de navegação utilizados pelos povos das ilhas do Pacífico.

Rehu Moana : a 1ª circum-navegação num multicasco

CURIOSIDADES

Éric Tabarly, na sua derrota ortodrómica (o caminho mais curto entre dois pontos na esfera terrestre), passou com alguma apreensão perto da ilha de Sable. Esta ilha situa-se a cerca de 300 km da costa do Canadá, na Nova Escócia, e é um estreito banco de areia com cerca de 42 km de comprimento, constantemente moldado pelos ventos e correntes do Atlântico. Devido às suas águas rasas, nevoeiros densos e tempestades frequentes, ganhou a reputação de “cemitério do Atlântico”, onde se estima que mais de 350 navios tenham naufragado ao longo dos séculos. Curiosamente, a ilha é habitada por uma manada de cavalos selvagens, que se tornaram símbolo do lugar. Acredita-se que tenham sido deixados por exploradores portugueses no século XVI, como recurso de sobrevivência para futuras expedições.

No livro, Tabarly expressa preocupações constantes com a sua mãe, revelando uma forte ligação afetiva entre ambos.

Nesta regata, alguns velejadores optaram por velas de junco, pelas suas vantagens em manobrabilidade e simplicidade. Tradicionalmente utilizadas em embarcações chinesas e do sudeste asiático há séculos, são compostas por várias seções horizontais, paus de sustentação chamados 'battens' que tornam a vela rígida e fácil de controlar.

Éric Tabarly, em Newport, enquanto aguardava a chegada dos outros concorrentes, sentiu-se seduzido pelos veleiros que treinavam para a Taça América, uma das mais antigas competições desportivas do mundo. Acabou por ser convidado a participar e adorou a experiência. Considerava que eram barcos muito rápidos, dotados de uma grande área vélica e equipados com os mais recentes aperfeiçoamentos técnicos.

Desenho do Pen Duick II