LIVROS LIDOS

📖 MARIA ANTONIETA | STEFAN ZWEIG

nº de estrelas dá a pontuação do livro

Este extraordinário escritor (e grande viajante) , que se dedicou particularmente à escrita biográfica, tem nesta obra uma das mais aclamadas. Stefan Zweig é para mim um dos maiores escritores com que eu contactei, e a leitura da sua biografia de Fernão de Magalhães é o exemplo : li esse livro do principio ao fim sem parar, literalmente.

Maria Antonieta, da dinastia Habsburgo, Austriaca tal como Zweig, casa com o Francês Luís XVI (todos os reis franceses eram luíses) , um Bourbon, quando eram duas crianças com apenas 14 e 15 anos respectivamente. Duas familias nobres das mais poderosas da Europa. Os casamentos entre casas dinásticas destinavam-se apenas a consolidar ou expandir o poder e estas duas já tinham sido rivais.

Mara Antonieta, era uma jovem fútil e só interessada no divertimento, apesar de enérgica e inteligente e com carácter. Não gosta de livros, nem dos negocios do estado, nem de tudo que é serio e exige perseverança e atenção. No casamento precoce, não encontrou nem um 'homem' nem um amante. Mesmo em adulto, Luís XVI, tornou-se num homem que só lhe interessava a caça e que não tinha firmeza para tomar qualquer decisão séria, por isso a Rainha tinha a fama de ser ela quem dirigia os destinos do estado Francês. Luís XVI era gordinho, miope, acanhado e indolente, avesso a 'festas', a antitese da sua bela esposa, uma mulher que só desejava a diversão e que para os cânones da altura era muito sensual.

Maria Antonieta

Por isso não é de estranhar que esta mulher se tenha apaixonado perdidamente pelo conde sueco Fersen . O escritor é categórico ao afirmar repetidamente que o conde foi o grande amor desta Rainha e que esta foi totalmente correspondida, nesta grande paixão, consumada ao longo de anos quando ela o recebia na sua privacidade. Curiosamente, Maria Antonieta e seu marido, que permaneceram sempre amigos, tiveram uma grande dignidade e coragem no acto da execução (guilhotina). Segundo Zweig, Luis XVI nada o amedrontava ou entusiasmava. Foram abandonados por praticamente todos, inclusivé a casa de Austria.

"Acrescente a isto que não temos um amigo, que toda a gente nos traiu: uns por ódio, outros por fraqueza ou ambiçao. Enfim, estou reduzida a esperar o dia em que nos deem um pouco de liberdade."

A leitura é cativante, ou não fosse escrito pelo Zweig e com a envolvente do aparecimento da República (muito inspirada em Jean-Jacques_Rousseau) e o inicio da queda das monarquias. Em Portugal aconteceu mais de 100 anos depois (*).

"A república transmitiu os mais nobres princípios das relações humanas: a liberdade religiosa, a liberdade de opinião. a liberdade de imprensa, a liberdade de comércio e a liberdade de pensamento, que gravaram nas tábuas das leis dos tempos modernos a igualdade de classes, das raças e das religiões, e que acabaram com os vergonhosos vestigios da idade média : torturas, trabalhos forçados e escravidão"

CURIOSIDADES

Com este livro mais uma vez me deparei com a crueldade da natureza humana, tendo conhecimento do suplício de Damiens e do massacre de S. Bartolomeu. Durante o chamado Período do Terror na Revolução Francesa, estima-se que entre 16.000 a 40.000 pessoas foram executadas, durante o governo do Comitê de Salvação Pública liderado por Robespierre. As execuções foram realizadas principalmente através do uso da guilhotina, como parte da repressão aos opositores políticos e àqueles considerados inimigos da Revolução. Irónicamente muitos dos 'executores' acabaram mais tarde executados.

"Na Vendeia, os camponeses revoltaram-se; a guerra civil começa; o Governo inglês chama o seu embaixador; os víveres rareiam; o povo agita-se. Como depois de todos os desastres, o mais perigoso dos vocábulos, a palavra traição, surge por todos os lados, mil vozes a propagam, e lança a perturbação sobre a capital. Nesta hora trágica, Danton, o homem mais enérgico e menos escrupuloso da Revolução, desfralda a bandeira sangrenta do Terror e toma a decisão secreta de fazer matar, durante os dias de Setembro, todos os suspeitos que enchem as prisões."

Achei curioso e estupido a etiqueta que reinava em Versalhes e que dominava o dia a dia do rei e da rainha. Por exemplo tinham as refeições na presença de outros fidalgos e inclusivé os partos eram assitidos por outros membros da nobreza. O filme biográfico de 2006 mostra estas anormalidades.

E o caso extraordinário de um roubo involvendo involuntariamente a rainha Maria Antonieta e que danificou muito a sua reputação às vésperas da Revolução Francesa, ajudando a ser ainda mais odiada pelo povo. Ela nos últimos dias esteve presa em total isolamento e só tinha a companhia de um cãozinho. Foi até infamemente acusada por incesto com o seu filho de 8 anos. Descobri neste livro que existiu uma personagem altamente misteriosa nesta éppoca : o conde de St. Germain.

Maria Antonieta desenhada por David Luis no caminho para a Guilhotina

" Na Revolução Francesa, como em qualquer outra, dois tipos se desenham claramente: os revolucionários que o idealismo guia e esses que são levados pelo ressentimento; uns, mais bem dotados que a multidão, querem elevá-la até si, fazê-la atingir o seu nível, a sua maneira de viver, aumentar a sua liberdade. Os outros, que foram durante muito tempo infelizes, procuram vingar-se dos mais felizes, e querem impor o seu poder aos senhores da véspera."

(*) A 1ª República Portuguesa deu-se a 5 de Outubro de 1910 e foi muito impulsionada pela maçonaria e a Carbonária que foi criada pelos maçons. Curiosamente o voto universal não existiu : analfabetos e mulheres não votavam que eram mais de 70 a 80% da população, e básicamente era só um nucleo urbano que votava. O hino nacional A Portuguesa substituiu o hino existente. Na república existia um sistema multipartidario tal como na monarquia.

A 1ª guerra mundial provocou uma crise social que acabou por despoletar o golpe militar em 1926 à boleia dos golpes fascistas emergentes. O clero esteve envolvido no golpe militar. Esta segunda república (quando o país se industrializou) ficou denominada pelo estado novo e foi uma ditadura que vigorou até ao 25 de Abril de 1974 (a 3ª república).