📖 JERRY NA ILHA | JACK LONDON
Jack London, o meu único ídolo, escreveu este romance (publicado em 1917) baseado nas suas experiências quando andou por estas paragens, nomeadamente nas ilhas Salomão. Ele construiu um veleiro e viajou pelo mundo com o intuito de realizar uma circum-navegação, que não chegou a concluir. Esta viagem, no início do século XX, foi extremamente arrojada, ainda para mais nas circunstâncias em que decorreu, nomeadamente sem pessoas com experiência na tripulação.
O protagonista do romance é um terrier irlandês, inspirado numa cadela que ele teve durante suas viagens oceânicas. Revela o seu grande amor pelo nosso irmão canino, e tal como eu, parece acreditar piamente que a diferença entres estes animais e os seres humanos não é tão grande quanto a nossa atual ciência julga. Por exemplo ele narra o Jerry a sonhar, que é algo que eu tenho presenciado nos meus cães, e ainda no sec XXI, havia cientistas que afirmavam que o sonho era uma experiência exclusiva aos seres humanos. Infelizmente, esta obra também revela o seu grande racismo relativamente aos negros e, particularmente, aos aborígenes destas ilhas 'selvagens'.
Mas o mais surpreendente é que o enredo, que incide sobre os rituais canibais deste arquipélago e que, na época, foi considerado completamente irrealista, por acreditarem que a antropofagia já tinha desaparecido no mundo, acabou por ser confirmado com o tempo. Até ao final do séc. XX, continuaram a surgir relatos desta prática nestas ilhas, tal como na Papua-Nova Guiné, que sempre esteve associada a actos de canibalismo. No entanto, a antropofagia não é exclusiva dessas regiões : por exemplo, os navegadores Portugueses da época dos descobrimentos também se depararam com essa prática em África, e no Brasil, e muitos tiveram esse destino trágico.
Curiosa também é a referência no livro a um descendente dos amotinados de Pitcairn e, como 'cereja no topo do bolo', a descrição de que o famoso navegador La Pérouse e alguns seus homens foram devorados por estes selvagens após terem naufragado, o que veio a confirmar-se muitas décadas mais tarde.
É sempre uma delícia ler Jack London.