📖 A CAMPANHA DO ARGUS | ALAN VILLIERS
O LUGRE NA PESCA DO BACALHAU
O autor, um marinheiro e escritor australiano muito conceituado, Alan Villiers , aceitou o convite do governo português para acompanhar a frota bacalhoeira Portuguesa em 1950, com um intuito obviamente propagandístico. Iria a bordo doArgus, um dos nossos maiores lugres , de 696 de tonelagem e 4 mastros, e um dos líderes da frota.
Ironicamente, o australiano não apreciava minimamente o bacalhau, até o menosprezando e que era exclusivamente a alimentação a bordo durante toda a temporada : bacalhau cozido, frito, panado, caras de bacalhau, samos (as gourmet membranas da espinha), etc. Percebi que bacalhau fresco era o mais apreciado e que, quanto maior o peixe, mais gordo e mais saboroso.
Esta pesca era fomentada pelo estado-novo que percebeu que o carácter aventureiro deste homem e a sua grande paixão por navios à vela seria o suficiente para o seduzir. A obra documental proveniente desta experiência promoveria a imagem de Portugal através destes homens extraordinários, os verdadeiros herdeiros do nosso honroso passado marítimo. O apogeu desta faina foi durante esta época.
Estes bravos homens faziam uma vez por ano esta viagem que durava entre 4 a 6 meses : só regressariam com o porão cheio de bacalhau salgado (e barris de óleo de fígado de bacalhau) o que normalmente conseguiam. Curiosamente o mau tempo fazia 'assentar' o bacalhau e assim aparecia mais espaço disponível e mais tempo demoraria a odisseia. Por isso estes intrépidos capitães apreciavam as tempestades para poderem acomodar mais peixe. A salga também ia progressivamente retirando humidade ao bacalhau e com isso proporcionando mais espaço.
A frota de pesca à linha partia de Portugal (muitos de Belêm, em Lisboa) em Abril ou Maio e iam pescar nos bancos da Terra Nova e do Estreito de Davis, na Gronelândia. Era a última frota de barcos à vela do mundo e na altura (1950) já os outros países bacalhoeiros - Espanha, França, Inglaterra e Itália - pescavam com barcos a motor e num sistema de arrastão (redes). Parece que antes de Colombo já os Portugueses andavam nestas paragens a pescar o bacalhau.
Esta frota era constituida maioritariamente por veleiros, apesar de já haver barcos a motor mas que também pescavam à linha . Estes veleiros , basicamente lugres tinham casco em aço, mas alguns ainda eram em madeira. Tinham um motor auxiliar, nem todos, que usavam nos bancos para mudar de local de pesca.
Muitos destes barcos eram construidos em Portugal, nas Gafanhas, ao contrário do nosso Argus, um lugre Holandês dirigido pelo capitão Adolfo, um marinheiro de Ilhavo de 52 anos. Todos os outros capitães da frota pesqueira eram desta localidade e raramente um pescador chegava ao posto de capitão.
O Argus todos os anos pescava praticamente com os mesmos homens, oriundos de Aveiro (Ilhavo), Algarve (Fuzeta) e dos Açores (Ponta Delgada). Os continentais vinham de comboio e os outros o Argus passava pelos Açores para ir buscá-los (e no regresso deixava-os). Tinham assim a garantia que possuiam pescadores com as qualidades necessárias ao desempenho desta pesca duríssima e que exige grandes qualidades náuticas e de piscatória. Muitos deles já pescavam no Argus há mais de 20 anos e esta temporada trouxeram para Portugal 10.000 quintais de bacalhau, 580 toneladas.
PESCA COM DÓRIS
Os pescadores iam pescar sózinhos nos famosos dóris (ficavam sempre com o mesmo após um sorteio inicial), uma embarcação de madeira muito frágil de 5 metros, de fundo raso e com um sistema vélico rudimentar. A razão de utilização deste tipo de barco é que assim conseguiam-nos empilhar nos convés dos navios : o nosso Argus por exemplo tinha 53 pescadores e por isso possuia pelo menos o mesmo numero de doris, mais alguns sobresselentes. Mas atenção, só há pouco mais de 100 anos que estes homens pescam com dóris , a pesca anteriormente era efectuada de dentro dos navios pesqueiros.
Pescavam à linha e neste ano já usavam um trol, que era uma linha 'mestra', com centenas de anzóis em estralhos que largavam nos bancos da Terra Nova e da Gronelandia : esta pesca era realizada com pouca profundidade. Os anzóis tinham isco : arenque, sardinha, lulas, cavalas, etc, servia quase tudo porque o bacalhau é um grande predador. No entanto também é um peixe muito estupido porque quando é apanhado não se debate deixando-se levar plácidamente para dentro do barco o que facilita e muito, a sua pesca.
Havia pescadores que sempre se destacavam porque pescavam muito mais que os outros. A maior fatia da remuneração de um pescador era a % sobre o seu peixe pescado o que permitia rendimentos para resto do ano com grande desafogo. Era uma arte saber localizar o bacalhau e eles queriam sempre sair para o mar, o capitão é que nem sempre o permitia.E a perícia de trabalhar com um trol que chegava a ter mil azóis não é para qualquer um. No entanto o factor primordial era uma questão de sorte : o capitão largar os dóris numa zona com muito bacalhau graúdo.
Estes homens passavam o dia sózinhos no mar (quando o tempo permitia) e quase todos a muitas milhas de distancia do navio mãe porque tinham a crença que o peixe encontrava-se sempre longe deste. Muitas vezes regressavam ao navio mais do que uma vêz por dia com os dóris cheios , com a água pela a amura, o que era extremamente perigoso com mau tempo. Os constantes nevoeiros, o vento forte e repentino, caracteristico do Estreito de Davis tornava esta pesca de grande perigosidade. Era muito raro uma época sem casos fatais. Após a pesca tinham que trabalhar a escalar e salgar o bacalhau até altas horas da noite e só depois iam dormir umas poucas horas para voltarem novamente para o mar. Era habitual trabalharem mais de 14/15 horas seguidas e só por isto dá para perceber que esta actividade não era para todos. Alan Villiers ficou com um grande respeito por estes homens, que apesar da sua rusticidade, tinham uma dignidade , coragem, competência e robustez dignas de heróis. Está presente em todo o livro essa admiração.
Muitas vezes pescavam à zagaia (com amostra), ou porque não existia isco, ou porque estava mau tempo ou porque havia necessidade de ter que recolher rapidamente as linhas devido ao receio de surgir um forte vento repentino.
Os pescadores só descansavam quando estava tempo tempestuoso, porque não saíam para pescar e quando iam muito raramente a São João da Terra Nova para abastecer água, alimentos, combustível, ou isco. Chegavam a estar ininterruptamente vários meses no mar. Por vezes ia quase toda a frota a esta localidade que até tinha um sociedade recreativa exclusiva da frota pesqueira Portuguesa. Aproveitavam nestas idas a terra para receber correio de Portugal. A 17 de Junho era o dia de Portugal nesta localidade Canadiana.
OUTRAS CURIOSIDADES
Gil Eanes, o navio-hospital acompanhava a frota e auxiliava qualquer navio em dificuldades independentemente da bandeira. Não se limitava sómente a apoio médico, porque também levava água, peças sobresselentes , etc, era um verdadeiro apoio à frota, até na procura de pescadores desaparecidos. O médico Bernardo Santareno serviu neste navio.
Havia ainda os moços de convés que passavam a vida a trabalhar em imensas funções , nomeadamente de limpeza e salga e era uma autentica escravidão ... O sonho era um dia serem pescadores ...
Existiu uma ligação forte de estes pescadores, ao longo dos tempos, com o porto maritimo de Gloucester , a tal localidade do filme a Tempestade Perfeita : muitos pescadores Portugueses vinham para estas paragens para arranjar trabalho. O Manuel do filme Capitão Coragem é um pescador português .
A origem do nome Canadá pode estar relacionada aos navegadores Portugueses nestas paragens : 'alguém' teria deixado escrito num mapa "Cá Nada", pois nestas paragens não haveria nada de interessante. Mais tarde um Francês teria interpretado essas duas palavras como sendo o nome da terra.