ENSAIOS

A oferta das praias Brasileiras

Texto escrito após a minha ida ao nordeste Brasileiro em 2000

Jorge Garcia no Nordeste brasileiro em 2000

Estava pensando no que iria encontrar e no que verdadeiramente me tinha impulsionado a efectuar esta viagem ao Recife: se a procura das paradisíacas praias nordestinas, se o exotismo do país, se o contacto com um povo liberal e de grande espiritualidade, se a procura de um clima que convida ao repouso ou gozo ou se motivos mais triviais. Como dois passageiros do avião professavam: dois "portugas" do norte que misturam negócios com prazer nas suas assíduas viagens ao Brasil, bradavam, para quem os quisesse ouvir no avião, do paraíso que constitui este país para quem vai à procura de aventuras amorosas. Foi um deles já num estado considerável de avançada embriaguez com um cheiro nauseabundo a vomitado (tinha-se descuidado quando "chamou pelo gregório") que me ia transmitindo paulatinamente e num tom professoral algumas dicas de "engate" presumindo ele que o intuito de qualquer turista que se desloque ao Brasil é o mesmo do deles: 'A mulher brasileira adora o português e assim como nós ficamos embevecidos com o sotaque feminino da mulher brasileira, com elas passa-se o mesmo, mas atenção não fales depressa porque elas não te entendem e nunca chames rapariga a uma moça'. De facto, como mais tarde vim a constatar, rapariga é um eufemismo de prostituta.

Jorge Garcia no Nordeste brasileiro em 2000

E qual não foi o meu espanto quando verifiquei que o que mais me surpresa e agrado causou durante esta minha viagem ao Recife foi toda a 'panóplia' de produtos que são oferecidos aos banhistas nestas paradisíacas praias pernambucanas. O veraneante só tem que levar uns calções de banho e toalha e uns reais nos bolsos para ter aos seus pés toda uma diversidade de produtos que lhe são oferecidos sem se dignar a sair da sua cadeira, que por sua vez também foi gentilmente alugada acompanhada pelo chapéu de sol e mesinha para depositar a invariável cerveja geladinha de 0,5 L dentro de um 'frapper'.

E então, meus senhores, é um verdadeiro deleite para quem aprecia novos sabores que excitem o paladar, refastelados numa cadeira em paragens exóticas e distantes. O peixe assado - que na verdade é frito - é uma verdadeira delícia: comer com as mãos uma corvina frita, regada com limão em plena praia é uma experiência fantástica; o paladar das ostras regadas com limão e salpicadas com pimenta é simplesmente inesquecível; os caranguejos e navalheiras acompanhados dum pirão de camarão (caldo que se aproveita da cozedura dos camarões para posteriormente juntar-se a farinha de mandioca) satisfaz os mais exigentes; o camarão vendido ao copo por 3 reais (1 real é aproximadamente 100 escudos); a doce cocada (bolo de coco e caramelo); as saborosas coxinhas de galinha, os enrolados de salsicha e os pastéis de queijo...

Comer queijo na brasa na praia

Sem dúvida nenhuma, um dos meus petiscos de predilecção era o queijo na brasa: um bocado de queijo de cabra ainda semi-fresco (queijo de coalho) espetado num pauzinho e salpicado com orégãos é passado na hora pelas brasas de um pequenino foguereiro; os maravilhosos caldinhos de peixe, cebola, feijão ou camarão, verdadeiros pitéus ao preço irrisório de um real, que diversos indivíduos apregoam pela praia com camisolas alusivas à empresa familiar que representam; o caldinho de camarão é parecido ao nosso creme de marisco, que o vendedor no acto de entrega adiciona um pouco de azeite, uma azeitona, molho inglês, ovos de codorna (codorniz), molho de alho e pimenta; é servido amávelmente num copinho, mais a respectiva colher e guardanapo.

Os mais dietistas podem presentear-se com as famosas raspadinhas - bebida feita de essência de frutas acompanhado por muito gelo ralado - ou com a grande diversidade de frutos exóticos como o jacá, palmito, goiaba, pitomba, coco, mamão, etc., uma infindável lista de frutas da qual já não me recordo da grande maioria delas; e os abacaxis (ananás mas mais pequeno) ao preço de um real, já cortados em pequenos pedaços e colocados num saco de plástico acompanhados por um pauzinho para os ir extraindo gulosamente. Para consolar os mais "diabéticos" existe o famoso, e não menos delicioso, caldo de cana que não é mais que a seiva da famosa cana de açúcar (açúcar que tanto ajudou este país a prosperar, a par do café, madeira, algodão, borracha e o ouro) ; obtido hoje de forma similar à do passado, isto é, fazendo passar a cana sucessivamente entre dois cilindros até escorrer toda a sua seiva verde - é após a secagem deste líquido pastoso que se obtém o açúcar; actualmente este processo é obtido com um engenho movido por um motor (neste caso, um pequeno motor integrado numa carripana ambulante), mas antigamente era a força dos escravos que movia os cilindros. Esta seiva misturada com muito gelo ralado num copo, e servida com uma palhinha, era igualmente um dos meus vícios diários.

Comer um caldinho na praia

Existe ainda a vertente dos frutos secos, nomeadamente o caju, os amendoins torrados e cozinhados e outros mais, que provavelmente olvidei. E para os mais afortunados, se tiverem a benção de lhes oferecerem na praia a tradicional tapioca, comprem logo uma dúzia porque é um verdadeiro manjar dos deuses - goma de mandioca recheada com coco e queijo de coalho; uma dica: as vendedoras são fácilmente reconhecidas porque estão vestidas à bahiana. Também existe o acarajé que é um bolinho de feijão, recheado com vatapá (creme amarelo cuja composição desconheço), camarão e molho verde (molho constituido por bocadinhos de tomate, cebola, coentros e pimentão - acompanha muitos pratos brasileiros entre eles a tão desejada picanha).

Para os mais desconfiados e conservadores, gustativamente falando, existe o picolé (sorvete) e os "nossos" hotdogs acompanhados por um refrigerante à escolha, pela módica quantia de 1 real - escolham o guaraná que é uma bebida engarrafada muito vulgar aqui, que é extraída dum fruto silvestre que se encontra na Amazónia; o que muito me espanta é como ainda não houve ninguém que tenha importado esta bebida para a Europa: seria um sucesso tremendo porque ela é de facto muito agradável.

O oferta da praia Brasileira

E depois temos o tabaco, o protector solar, os óculos de sol, o sândalo para matar a traça, as t-shirts, os sacos e toda uma gama incrível de artigos que são oferecidos delicadamente e sem o mínimo assédio por parte dos vendedores. E, coisa curiosa que constatei ao fim de algum tempo: todos estes produtos têm como cliente alvo o próprio brasileiro (apesar do seu pouco poder económico - o ordenado médio de um Pernambucano ronda os 15.000 escudos) porque os estrangeiros são uma minoria nestas imensas praias. E não esqueçamos que tudo isto é oferecido a preços extremamente acessíveis à nossa carteira.

Mas atenção aos banhistas incautos: após o repasto, não vão servir de almoço aos tubarões porque, a poucos metros da praia, o mar está infestado deles à espreita de algum turista que, na lamentável ausência de informação sobre o facto (para não afastar o turismo), se atreva a dar umas braçadas um pouco mais ao largo. Na semana anterior à minha estadia, um tubarão veio a poucos metros da praia e matou uma pessoa: dizem que ali, 50% dos ataques dos tubarões são mortíferos.

Este ensaio é original e encontra-se registado na IGAC

Registo IGAC de Jorge Garcia

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