🎨 MÍSERAS ARTES PLÁSTICAS
Texto escrito na minha adolescência
Se a qualidade de uma pintura pudesse ser avaliada, sentida de uma forma objectiva e directa como uma música, provavelmente muitos quadros hoje valiosissimos, seriam tão insignificantes e intragáveis, como por exemplo, muitas faixas free-jazz ou psicadélica que hoje ninguém consegue escutar, apesar do seu reconhecido valor histórico.
SENTIDO DO BELO
É óbvio que hoje o mundo das artes plásticas está completamente desvirtuado. O sentido do belo perdeu-se em prol de uma constante intelectualização crescente, o que provoca um contra-senso - o valor de uma obra de arte que deveria ser estimado em função da sua beleza, inovação e conteúdo, passou a ser avaliado em apenas um dos três componentes. Consequências: hoje já ninguém consegue na presença de uma criação artística, exprimir-se intuitiva e sinceramente, porque pode passar por ignorante ou insensível. Como Renoir já tinha previsto muito lucidamente, hoje existe muitos artistas que se refugiam em teorias e correntes artísticas, para esconder as suas limitações de ordem plástica.
Esta alienação favorece efectivamente o conluio das elites - quem tem padrinhos que lhes permite expor nos 'locais sagrados', que lhes permite obter uma critica honrosa dos media, são favorecidos em detrimento de outros, muitas das vezes com maiores capacidades mas sem os conhecimentos inerentes à movimentação no meio.
A realidade triste do nosso panorama artístico nacional é esta: existem hoje algumas galerias em que se vende bem (são poucas relativamente ao número total de locais de exposição ) independentemente da qualidade das obras, isto é, já se sabe de antemão ( antes de expostas e obviamente conhecidas ) que vão ser vendidas sem grande dificuldade.
A INSPIRAÇÃO NO ACTO ARTÍSTICO
E isto leva-nos a outra questão pertinente : um compositor musical ao longo de uma vida, consegue por vezes obter composições excepcionais, o que não invalida que crie outras completamente abomináveis ou simplesmente medíocres, o que efectivamente se passa com praticamente todos os compositores das mais diversas correntes musicais, já que a transcendência para a obtenção do belo é algo de mágico, de esotérico - é uma benção dos Céus a que um artista pode ter maior ou menor acesso consoante a sua sensibilidade e apuro técnico.
Porque é que, qualquer obra executada por um artista plástico consagrado é considerado uma obra-prima? será que os pintores, escultores, não são vulneráveis ao factor inspiração como qualquer outro criador artístico? É que os compositores musicais pelo acima exposto estão consideravelmente em desvantagem relativamente aos seus congéneres das artes plásticas: são constantemente avaliados ( pelos mais lúcidos porque há quem proceda nesta área da mesma forma ) ao longo da sua carreira - o facto de apresentar um ou vários trabalhos de qualidade excepcional não lhe dá a garantia de a sua obra futura ser de qualidade idêntica. Eu exemplifico muito pragmaticamente : suponhamos um quadro cujos elementos pictóricos são constituídos exclusivamente por três riscos num fundo branco e tiver a assinatura dum Miró, Vieira da Silva ou Mondrian, por exemplo, ninguém têm a ousadia de pôr em causa a qualidade dessa “obra prima”.
É simplesmente caricato ver ao ponto em que chegaram as nossas artes plásticas eruditas e quantas pessoas em todo o mundo pactuam inconscientemente com esta arbitrariedade . Perdeu-se completamente o sentido do belo intemporal. O estado em que se encontra neste final de século as nossas artes plásticas traduz bem o caos e alienação que a nossa cultura ocidental atingiu.