ENSAIOS

JOSÉ SARAMAGO

Foi com grande expectativa e muita suspeita à mistura (um escritor que afirma que depois do prémio nobel não tinha mais nada a esperar desta vida, todas as metas por ele preconizadas tinham sido alcançadas ... ) que comecei a ler Memorial do Convento, mas ... desisti após a leitura enfadonha de meia dúzia de páginas e recordei o que Saramago afirmou numa passada entrevista : o acto de escrita para ele é uma tarefa árdua e cansativa e que encara obstinada e diariamente de igual forma que um qualquer operário perante a inevitabilidade de um dia fabril para provir seu sustento.

Efectivamente a sua escrita não tem nada de "natural/genuína" porque toda ela é impregnada de artifícios para torná-la digna de interesse e, sendo assim, não é difícil de perceber que é necessário um esforço suplementar para a obtenção de conteúdos apetecíveis comparativamente a quem tem a inata facilidade de expressão escrita e, efectivamente, algo a contar, a ensinar aos leitores. Como se explica que Jorge Amado que foi um romancista na verdadeira acepção da palavra e talvez um dos maiores escritores de todos os tempos de língua portuguesa, tenha morrido sem ter recebido o nobel da literatura ?

José Saramago

É inquestionável que o vocabulário de Saramago é muito rico e está apoiado num estilo peculiar ( para mim, pretensioso e desagradável) e que, inteligentemente, na abordagem a um tema, faz um antecipado estudo, de modo a conferir um valor a seus textos que de outra forma não o teria. No caso do "Memorial do Convento", é evidente que Saramago estudou exaustivamente a época histórica que evoca antes de principiar a cansativa tarefa de construir uma obra literária : o mestre afirma que quando acaba um romance está completamente extenuado e, há muito, desejoso de o terminar.

DOM DA ESCRITA | FLUIDEZ DA LEITURA

É certo que estou a ser pretensioso e, para muitos, de extrema ignorância, ao ter a ousadia de afrontar o nosso nobel, e não julguem que é por motivos políticos, porque se assim o fosse, não admiraria Manuel da Fonseca. Mas eu tenho uma concepção de literatura, ao nível do romance, completamente antagónica com a prosa do escritor Saramago . Um romancista para além da mensagem intrínseca à sua obra, tem de ter o dom da escrita, que se revela inequivocamente na fluidez da leitura de seus textos e na capacidade de nos transpor para os ambientes recriados. Características fundamentais que, aliadas a um tema interessante, proporciona-nos prazer no acto da leitura : a leitura de um romance acima de tudo é uma actividade lúdica ! Estes atributos estão completamente ausentes em "Memorial de Convento" e, provavelmente, em toda a obra de Saramago ( já desfolhei O Evangelho Segundo Jesus Cristo e encontrei o mesmo estilo ) : não basta o saber escrever bem, ter um estilo próprio apoiado em descritivos históricos de uma época ! A escrita é um dom, tal como a capacidade de harmonizar linhas e cores o é para um artista !

Curioso é, numa introdução ao romance, Saramago colocar um texto de Marguerite Yourcenar : a única obra que contactei da escritora - Obra ao Negro - é precisamente o mesmo tipo de trabalho ( estratagema ) e lê-lo, só como penitência.

A LEITURA NÃO É UM EXERCÍCIO INTELECTUAL

Quem se deleita e viaja com um Steinbeck, um Dostoievsky , Jorge Amado, Mário de Sá Carneiro , Aldous Huxley, Herman Hess, Somerseth Maughan, Stefan Zweig (a sua biografia de Fernão de Magalhães é tão intensa que não consegui parar de ler desde que a iniciei o que me obrigou a uma directa ; ainda uma noite neste Verão de 2001, tive sérias dificuldades em parar de ler o Lobo do Mar de Jack London, escrito em 1904 - já era 04h30 m e só um grande cansaço mental me fez protelar, apesar de muito frustado, a leitura para essa manhã ), para mencionar alguns, como consegue digerir Saramago ?

E, para cúmulo, já se prevê introduzir o estudo das suas obras na disciplina de Português no secundário : não bastavam os Maias (evidentemente uma obra com valor histórico porque retrata uma época fidedignamente ) , as Viagens da Minha Terrae outros, para vacinarem qualquer jovem contra o prazer da leitura.

José Saramago

O PRAZER DA LEITURA

A disciplina de Português tem a obrigação de provocar nos jovens o prazer da leitura e obviamente isso não passa pela leitura da grande maioria dos autores propostos . Mas essa tontaria está à imagem de todo o ensino que é um completo equívoco : conteúdos completamente inadequados (por exemplo, ainda não me esqueci do Discurso do Método que estudei no secundário - Descartes a provar a existência de Deus como se os miúdos já tivessem problemas existencialistas), inexistência de técnicas de abordagem para melhor assimilação das matérias ( por isso é que a Matemática é um completo fracasso) , cargas horárias massivas ( a minha filha, no 12º ano, tinha todos os dias aulas de manhã e de tarde, à excepção de um dia em que só tinha de manhã ) que não deixam aos jovens nem tempo para respirar ... uma lástima. Sábiamente, Eugénio de Lisboa disse numa entrevista que não temos que ensinar aos jovens os Clássicos mas sim o prazer da leitura.

Se não fosse a minha predisposição inata para a leitura ( desde muito novo deslocava-me à antiga biblioteca do Seixal e devorava preferencialmente a vasta obra de Emilio Salgari) teria, infelizmente, como uma grande maioria de jovens Portugueses, associado inconscientemente literatura a sinónimo de enfado e a um mero exercício intelectual em que o prazer está irremediavelmente arredado.

Este ensaio é original e encontra-se registado na IGAC

Registo IGAC de Jorge Garcia

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