📺 Big Brother Português
OS DETRATORES
Texto escrito durante o primeira edição do Big Brother (2000). Hoje poderiamos dizer o mesmo relativamente ao Facebook : os detractores ou quem não participa nesta plataforma apenas porque é do "povo"... Hoje já não acompanho este reality show.
Devido a ter contactado ao longo do concurso Big Brother com comentários nada abonatórios e quase sempre impregnados de preconceitos e ignorância, e após o lamentável espectáculo que uns ilustres críticos da nossa praça proporcionaram, em directo, a milhões de Portugueses com suas injustas críticas ao programa, não resisti a escrever estas linhas.
A PSEUDO-INTELECTUALIDADE
1. Os detractores do concurso inspirado no romance 1984 de George Orweell são, raras excepções, oriundos da pequena burguesia - ambicionando outros escalões sociais - ou indivíduos com pretensões no mundo da pseudo-intelectualidade : como poderiam gostar dum programa, idolatrado pelo ignaro povo e cujos os protagonistas são elementos desse mesmo povo?
2. Uma das censuras mais repetidas é a pobreza do discurso dos residentes. E eu pergunto : será que estes senhores acham que os portugueses queriam ouvir dissertações profundas e eruditas sobre a nossa frívola e mesquinha vida política e social ? Ou gostariam de escutar momentos de pura dialéctica na sua intrínseca inocuidade ? É que, já não há paciência para acompanhar nos orgãos de comunicação, as intrigas, jogos do poder e crónicas bizantinas que estes senhores materializam e tanto apreciam !
No entanto, deveriam saber, atendendo ao vosso suposto mérito e idade, que a intelectualidade é um verniz sobre a essência da personalidade ou o verdadeiro EU da natureza humana. E deveriam saber também, que este se revela nos momentos mais íntimos e intensos ( e como tal, verdadeiros ) que o concurso pimba proporcionava!
PRECONCEITO, IGNORÂNCIA & SNOBISMO
Um dos senhores teve ainda a ousadia de afirmar que seria mais benéfico para os concorrentes ( e pasmem : para os telespectadores ! ) , se eles tivessem estudado durante toda a permanência na casa : será que ele acredita que o estudo académico em 4 meses é mais valioso que a vivência intensa e única, proporcionada pela clausura com mais uma dúzia de jovens ? Realmente nem há palavras para comentar tamanha inocência!
Por outro lado, aqueles jovens com seus diálogos e comportamentos pueris, revelam que felizmente, ainda existe inocência nas suas naturezas.
Mas o manancial de baboseiras, por parte de pessoas que tem responsabilidade na opinião pública (homens que formam correntes de opinião ), não se ficou por aqui :
referiram causticamente a afronta à intimidade e privacidade pessoal ( que deve ser preservada ) que o concurso representa : esta crítica é no mínimo ridícula, na medida em que os concorrentes tinham previamente conhecimento dessa condição.
Mas o que inequivocamente essas pretensiosas críticas revelam, é que esses senhores são detentores de uma consciência preconceituosa e obtusa, mais conforme uma mente obscurantista da idade média, na sua descarada e hipócrita crítica a imagens de jovens nus ( em plena inocência ), quando todos os dias e a todas as horas do dia, são veiculadas na TV, imagens de sexo quase explícito !
Como Aldous Huxley perspicazmente comentou à muitos anos atrás : a nata da intelectualidade ocidental , em inteligência emocional, social e consciência espiritual é de uma pobreza confrangedora.
EXCESSOS DA PRODUÇÃO | REALITY SHOW
3. Obviamente foram cometidos alguns excessos pela produção ( inexplicavelmente não mencionado pelos detractores), nomeadamente a deplorável introdução de bebidas alcoólicas na casa, com o intuito de provocar estados ébrios de modo a provocar situações inusitadas e escandalosas que logicamente iriam aumentar as audiências em detrimento do bom nome dos ingénuos protagonistas.
Obviamente, o visionamento diário é monótono e destituído de curiosidade : a terça-feira através do resumo semanal das situações mais interessantes, associado ao momento das nomeações/expulsões tornam o concurso um momento único, sem precedentes em termos televisivos, para quem se deleita com o confronto de personalidades e consequente jogo psicológico.
A PROJEÇÃO COMO DEFESA
4. Este concurso proporcionou-me igualmente um curioso estratagema para análise psicológica dos telespectadores do concurso : o julgamento que fazem sobre a veracidade da postura humilde e verdadeira do herói Zé Maria. A opinião revela a natureza do julgador, porque invariavelmente é fruto da projecção que ele faz de si mesmo sobre outrem.
Isto é, quanto menos verdadeiras e humildes as pessoas o são, menos a capacidade para aceitar essas qualidades nos outros - o homem verdadeiramente desonesto supõe sempre que os outros também o são, em maior ou menor grau.
O facto do Zé Maria, incontestavelmente, ter se tornado num dos maiores ídolos nacionais da actualidade (senão o maior) deveria ser um motivo de reflexão para os nossos pensadores. E como tal, um óptimo tema para seus escritos, que certamente seriam muito mais interessantes e úteis a seus leitores, nem que seja, pelo facto de poupá-los da habitual verborreia pela colmatação da invariável falta de ideias.
5. Mas, como em quase tudo na vida, existe sempre mais do que uma abordagem a um assunto polémico, e este programa, não foge à regra : apesar de todas as críticas que possamos apontar, ele faz repensar toda a estratégia/política de televisão em Portugal !