CASTELO BRANCO

🎯 FALCOARIA

Escrevo sobre caça sem a praticar — porque compreender não exige matar.
A minha bússola é sempre o respeito pela vida.

A cetraria, também conhecida como falcoaria ou altanaria, é a arte e prática de treinar aves de rapina para a caça de 'baixo rendimento'. Trata-se de uma tradição antiga que remonta a milhares de anos e é praticada em várias partes do mundo. Em 2012, a falcoaria foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Falcoaria : caçar com aves de rapina

FALCOARIA EM PORTUGAL

Em Portugal, a falcoaria tem uma longa história e desempenha um papel significativo na preservação das tradições culturais. Na idade média era uma prática comum entre na aristocracia, e há vestígios de sua existência já no séc. V. Durante séculos, esta arte de caça esteve associada ao 'status social', e, ainda hoje, a posse de uma ave de rapina não está ao alcance de todos. Os portugueses, como muitos europeus da época, eram conhecidos por suas habilidades em treinar falcões e outros aves de rapina para caça de aves e pequenos mamíferos.

Cetraria : caçar com aves de rapina

ALTO E BAIXO VOO

As aves usadas na falcoaria dividem-se em dois grupos : baixo-voo e alto-voo. As rapinas de alto-voo têm asas longas e cauda curta, ao contrário das de baixo-voo, que têm asas curtas e cauda longa. As aves de baixo-voo perseguem as presas junto ao solo, enquanto as de alto-voo ganham altura para mergulhar a pique sobre a presa em pleno voo, necessitando, para isso, de zonas abertas.

As aves utilizadas na caça de alto-voo são normalmente os falcões, sendo o mais conhecido o famoso falcão peregrino, por ser o animal mais rápido à face da terra, podendo atingir mais de 300 km/h. Na cetraria, ele é considerado o 'príncipe' das aves de caça. São usadas mais subespécies do falcão peregrino assim como outras espécies de falcões, muitos dos quais podem ser encontrados no estado selvagem em Portugal devido às suas migrações. Altanaria, no sentido restrito significa aves de alto-voo.

As aves de baixo-voo são tipicamente o açor, o gavião, os búteos e as águias.

As aves do sexo masculino são designadas por terçós e as de sexo feminino por primas.

As aves de rapina na caça

EQUIPAMENTO

Um dos materiais usados na prática venatória com falcões ou outras aves de rapina é uma máscara de couro chamada caparão, destinada a cobrir a cabeça do animal para mantê-lo na obscuridade, mas com a particularidade de proteger adequadamente os olhos. As aves de rapina são muito sensíveis ao ambiente ao seu redor, e o caparão ajuda a mantê-las calmas ao bloquear sua visão, impedindo que se distraiam ou fiquem stressadas com estímulos externos.

São necessários duas fitas (correias), uma curta (1,50 m) e outra comprida (15 a 20 m), que se prendem aos membros inferiores da ave (tarsos). As correia curtas (piós) permitem ao falcoeiro segurar a ave com segurança enquanto a maneja, evitando que ela escape durante a sua manipulação. A correia comprida (fiador) dá à ave liberdade para voar dentro de um raio controlado, permitindo que o falcoeiro mantenha a ave sob controle e evite que ela fuja. Também são necessárias luvas bastante grossas, de cabedal, que protegem a mão do falcoeiro contra ferimentos causados pelas garras quando a ave pousa ou se alimenta.

Altenaria : caçar com aves de rapina

Outros objectos inerentes à actividade incluem poleiros, um bebedouro, uma balança para monitorar o peso da ave, essencial para garantir que ela esteja no peso ideal para a caça ; uma isca, que imita a presa e é usada para atrair a ave durante o treino ; um transmissor de rádio ou GPS, para rastrear sua localização caso ela voe para longe ; guizos (cascavéis) presos às pernas da ave para mais fácil localiza-la ; um apito, usado para chamar a ave de volta e frequentemente associado a uma recompensa ; uma caixa de transporte, usada para transportar a ave de maneira segura entre o local de treino e o local de caça.

TREINO

Para ensinar um falcão, a ave de rapina mais indicada, quer pela inteligência e codícia, começa-se por submetê-lo a comer à mão, alcançando-se esse objetivo por meio de um jejum mais ou menos prolongado. Após conseguir esse resultado, normalmente em 3 a 5 dias, inicia-se o adestramento propriamente dito, que inclui desde o transporte com ou sem caparão e o salto do poleiro para a mão do tratador, até à largada, no engodo de qualquer petisco (isca), mas ainda preso pela fita grande. Por fim, quando apropriado, começa a lançar-se o falcão a qualquer presa viva, regra geral um pombo, sem dar-lhe a oportunidade de o devorar, mas compensando-o com guloseimas . Assim que a submissão seja absoluta, pode começar-se a largar o falcão em acções venatórias, de preferência em locais amplos e livres de arvoredo.

Arranjar em Portugal quem nos ajude a treinar a ave pode ser uma dificuldade acrescida, atendendo à pouca oferta.